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Como transformar três mil reais num escândalo

Rômulo Gomes 

Uma sucursal em Brasília, uma empresa de informática, um jornalista, dois empresários que resolvem desbancar um político que facilita acordo para licitações do governo e três mil reais. Assim, inicia-se uma das maiores temporadas de caça de todos os tempos: pessoas que usam o governo para enriquecer ilicitamente. Mas é uma caçada diferente, o prêmio desta vez é a cabeça do chefe do bando.

Desde 18 de maio, o Brasil assiste o que uns chamam de caçada implacável, show de jornalismo, vergonha nacional, enfim, um levante pela extinção da corrupção no País. A pioneira neste processo tem sido a revista Veja

Policarpo Júnior, da sucursal de Brasília, talvez não tivesse idéia do tamanho da repercussão que a sua denúncia teria junto ao público. Repercussão tal que, desde que o caso explodiu, a revista já publicou dez reportagens sobre o mesmo tema.

A credibilidade que a Veja construiu para si parece inquestionável. Em mais de dez edições falando sobre a corrupção nas últimas semanas, ela tem publicado cerca de duas ou três reportagens sobre o assunto em cada uma das edições. Descobertas que hoje se comparam a uma maravilha científica. Revelações que lembram aquilo que mártires fizeram por suas pátrias. 

Entretanto, feitos heróicos e curas para doenças não são esquecidos tão rapidamente como as notícias que bombardeiam a mente das pessoas todos os dias. É o que tende a acontecer quando um assunto é instigado tão fortemente quanto tem sido a crise do Mensalão. Resultado disso é que outras publicações relevantes têm fugido de seus temas por não serem tão "quentes".

Corrupção editorial

Esta tem sido a dúvida em relação à cobertura sobre o escândalo que comove o País - mesmo que essa comoção seja de raiva ou tristeza. Como principal veículo das acusações contra a corrupção no governo, será que a revista está se posicionando sem espetacularizar a notícia? Será que não tem sido maniqueísta colocando o governo como eterno vilão? E sobre a postura da revista em relação ao presidente Lula? Bem, desde 1989, a Veja já descrevia como ela imaginava o representante popular das classes. E não era uma descrição muito agradável. Parece até que a revista retomou as edições em que o atual presidente, na época candidato, era retratado como dúvida sistemática e uma temida figura política.

O que inicialmente começou com três mil reais e um diretor dos Correios, já passou para dois líderes de partidos, um publicitário, o tesoureiro do partido, alguns ministros e, agora, o mais novo deles o ministro da Fazenda, Antônio Palocci.

Mas o que tem gerado dúvida a respeito da postura da revista é a intensidade com a qual as informações são trabalhadas e a imagem que tem construído de alguns personagens públicos, espcialmente o presidente. E sobre este último assunto, o ex-repórter da Folha do Estado, Fábio Carvalho, afirmou no Observatório da Imprensa (16/8) que "Veja seleciona os fatos a revelar". Ele criticou o último número da revista. Nessa edição, um doleiro preso fez denúncias contra o governo. Na opinião do jornalista, a revista considerou o materia quase como dogmáticas. Veja teria apostado na história baseada em cartas que o preso escreveu a familiares.

Uma semana antes das considerações de Fábio Carvalho, o Diário Vermelho, por meio de Sônia Corrêa, publicava uma crítica ferrenha à revista. O material foi republicado também no Observatório. A crítica questionava também a apuração de Veja sobre uma manifestação estudantil a favor de Lula, que foi interpretada  como um ato de repúdio ao presidente. Sobre o assunto, Sônia descreve que o periódico "mais uma vez demonstra a leviandade e desonestidade com que faz jornalismo". Enquanto o governo é massacrado pelas reportagens da Veja, o mesmo acontece com a revista, que sofre ataques diretos dos críticos da mídia. 

Verdades implícitas

Um silogismo bem interessante pode ser extraído deste caso. Se ao mesmo tempo em que o governo é bombardeado pela imprensa, um desses reconhecidos veículos sofre pesadas críticas da sua própria concorrência, é porque os poderes político e jornalístico têm, no mínimo, papéis questionáveis. Ou, ainda, interesses particulares e escusos entre ambos.

Apesar de ser uma crítica subjetiva, ela parece bem fundamentada. Nas eleições anteriores, a Veja sempre se posicionou contra Lula. As capas eram obscuras ao falar do candidato, criavam más expectativas e, por fim, o candidato não era eleito.

Como passar do tempo, o PT foi mudando e chegou ao poder, abandonando o que parecia ser o eterno papel de oposição. Entretanto, bastou o primeiro deslize ser descoberto para reabrirem a temporada de caça.

Se anteriormente o periódico parecia inibir a possibilidade de Lula chegar ao poder, hoje ele parece lutar para que ele seja deposto pelo impeachment. As denúncias cada vez mais contundentes envolvem peixes cada vez maiores. O que começou com o diretor dos Correios e um deputado do PTB, já chegou até o presidente da República. Com isso, a Veja se tornou o palco da maior crise do Governo desde a era Collor.

A postura da revista é tão forte que até os textos dos leitores são carregados de impressões. Na edição de 17/8, apenas dois comentários de leitores da revista são a favor de Lula enquanto outros 20 são contra ou neutros em relação ao presidente. Até nisso, a revista impõe-se.

Até agora, o que o Brasil tem assistido é semelhante a um reality show político. Com personagens eliminados e tudo. E quem parece pagar a conta é a Veja. Alguns se assustam, outros se emocionam e alguns se entristecem. 

Tratando-se de jornalismo, tudo é muito parecido com o complexo de Mastercard. O preço de uma propina: três mil reais. O valor de cinco campanhas do PT: cerca de 25 milhões de reais. O valor da crença de milhões de brasileiros no que se publica: pergunte a diretoria da revista Veja. Existem coisas que não se compra, outras edita-se.