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Rabo
preso é um problema
Andréia Moura
Mais devastador que o Tsunami. Melhor que os jogos da seleção. O único capaz de fazer uma pessoa assistir TV Senado uma tarde inteira. Aquele que consegue deixar o
Jornal Nacional ainda melhor que o último capítulo de novela das oito: o Mensalão! O único ao inteiro dispor de seu divertimento.
O que há para dizer ainda? A que ponto chegou-se como sociedade, como democracia? Não tão baixo que não se possa cair mais.
Uma felicidade para os meios de comunicação, que se divertem fazendo essa sujeirada feder um pouco mais a cada dia. A revista
Época tem abordado o escândalo de maneira semelhante aos jornais e revistas,
mas talvez um pouco mais cautelosa.
No começo, quando o caso explodiu pelas mãos - e boca - de Roberto Jefferson, a revista parecia se divertir com a situação. Não levou a sério as acusações que poderiam
derrubar o "governo do povo". Em 20/6, "Lula 2 - a missão", o otimismo era reinante. Afirmações como "Lula não será afetado"; "O presidente está acima das acusações"; "O foco do problema é José Dirceu, com sua saída tudo volta aos eixos", permearam as matérias. Até as fotos eram positivas.
Quem iria imaginar que finalmente varreriam a poeira que estava debaixo do tapete? Sem dó nem piedade,
Época chamou Jefferson de mentiroso e de difamador, uma vez que ele havia acusado a revista de cuidar dos interesses de Dirceu. E não? Jefferson disse com todas as letras que José Dirceu é quem havia mandado
Época na pista dele. O tempo mostrou que era preciso ter bem mais do que cautela. Medo talvez. Ou melhor, esperteza para não se chamuscar no fogo que estava dizimando pouco a pouco a cúpula do poder.
Fujam do porão!
Segundo a "sabedoria popular", na hora do naufrágio os ratos abandonam o navio. Vendo que a coisa estava ficando preta, a revista mudou drasticamente a abordagem. Tornou-se mais objetiva, fazendo até alguns ataques furtivos ao governo. Na reportagem de 4/7, "Companheiro afortunado", a revista escancarou Marcos Valério. Falou do misterioso aumento de suas rendas, insinuando a ligação
da roubalheira com o poder. "Nada está comprovado ainda" era a idéia impressa nas entrelinhas. É claro que
Época não iria defender o governo depois de tudo, mas ainda era cedo para passar à franca oposição.
Com a palhaçada em que tudo se transformou, a revista deixou a cautela de lado e escrachou de vez. Nas reportagens de 18/7 ("O esquema desmorona" e "No país do dinheiro vivo") e 25/7 ("Dinheiro sujo abasteceu PT" e "Os bancos do PT")
Época não poupou acusações e dados. Ironizou as declarações dos políticos e até criou um boxe para "Dez perguntas singelas em busca de respostas". Essas perguntas quebravam a maioria das lorotas que os parlamentares tiveram a cara-de-pau de contar. Os infográficos pareciam mais com charges e as fotos mostravam a derrota
iminente do PT. Mais uma prova do fim da união rentável e promissora entre o governo e a empresa dos Marinho.
O clímax da novela "O Mensalão" - que mais parece título de dramalhão mexicano - foi o periódico ter publicado como inédito, na edição de 15/8, as confissões do deputado Valdemar Costa Neto publicadas em 2002 pela
Carta Capital. Isso despertou a indignação de Mino Carta, que fez questão de publicar um texto reivindicando o furo jornalístico. O texto
de Época é quase uma cópia fiel - nome suave para plágio - da publicação de
Carta Capital. O pior de tudo é que o próprio Costa Neto, antes de conceder as "confissões", foi atrás de uma cópia da revista de Mino Carta para, quem sabe, relembrar todas as informações. Será que
Época não sabia da publicação anterior? Isso sim parece lorota de parlamentar. Coincidência ou não, Maria Christina, ex-mulher de Costa Neto, já afirmava: "Ele adora requentar notícia".
A verdade é uma só. Como diz Mino Carta, vivemos num País onde as redações e os meios de comunicação estão mais interessados em ganhar concorrências e cuidar do negócio dos patrões do que lutar pelo povo, pela opinião pública, pela sociedade, pela democracia. Com isso, transformam em notícia o que bem querem - seja verdade ou pura especulação. Não é diferente com a revista. Principalmente com
Época. Resumindo: rabo preso é um problema. Um problemão.


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