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Carta Capital: fidelidade à toda prova

Larissa Jansson 

A revista Carta Capital sempre teve uma linha editorial bem definida e peculiar desde seu nascimento, em meados de 1994. Feita para falar de política, economia e cultura, a história da revista de Mino Carta é marcada por grandes reportagens investigativas - como a que denunciou a atuação ilegal da CIA no Brasil. Colecionou prêmios e firmou-se como uma opção àqueles que desejam informação que transcende o esperado.

O periódico sempre se pronunciou contra a política interna e externa dos EUA e nunca temeu criticar titãs da mídia nacional tais como a concorrente Veja e a toda poderosa Rede Globo. Posicionou-se abertamente ao lado de Lula nas eleições de 2002. 

Naquela época, trazia matérias e artigos que procuravam desarmar o medo e o preconceito contra o candidato petista. Na edição de 23/10/2002, o articulista Delfim Netto escreveu que "se Lula cumprir o que promete, terá condições de restabelecer a confiança externa e o crescimento interno. O Brasil sobreviverá à crise, mais forte, mais solidário e com a esperança de vir a ser mais justo. Esta é a grande oportunidade de deixarmos o velho para trás e encarar com coragem a possibilidade de mudança. (...) É com essa esperança que votarei em Lula sem ter me convertido ao petismo".

Desde que Lula finalmente chegou à presidência, Carta Capital apoiou Lula, mas sem fechar os olhos às dificuldades e erros do governo petista.

A crise

Já aos primeiros indícios de irregularidades contra o Partido dos Trabalhadores, acusado que foi pelo deputado Roberto Jefferson (PTB - RJ) de pagar propinas ao Congresso para ter seus projetos aprovados, Carta Capital adotou uma postura cautelosa, porém honesta, com seus leitores.

Lembrou que o acusador não possuía provas e que se baseava em uma denúncia já publicada no Jornal do Brasil um ano antes. Contrariando a postura de alguns veículos, Carta procurou manter-se sóbria em meio à histeria de denúncias publicadas como fatos quando em boa parte dos casos não passaram de acusações que a CPI não conseguiu obter provas. 

Quanto a Jefferson, a revista sentenciou na edição de 29/6: "Se não apresentar novidades convincentes, o show pessoal de Jefferson tende a perder platéia, abafado também pelo trabalho da CPI dos Correios, que, por sinal, começou sem muito fôlego. Para a oposição, que ainda busca um caminho que conduza as denúncias ao coração do governo, o depoimento do funcionário da ECT, Maurício Marinho, não abriu perspectivas".

Procurou manter sempre à vista do leitor que escândalos políticos fazem parte da história. Para tanto, relembrou casos não muito antigos de falcatruas perpetradas exatamente pelos grupos oposicionistas que, naquele momento, queriam a cabeça do presidente. Quando algumas das irregularidades foram confirmadas, mostrou, na mesma edição, a ironia de que esta oposição - leia-se PSDB e PFL - acabou no mesmo banco dos réus, junto com o PT. Ela foi acusada de ligação com o publicitário Marcos Valério e seu esquema de financiamento ilegal de campanhas eleitorais nos idos tempos de Fernando Henrique Cardoso. 

A revista revelou a posição do ex-presidente diante da crise petista durante uma reunião em sua residência, em São Paulo, com outros colegas de legenda: "O ex-presidente tratou de extrair do retrato revelado pela CPI todos os tucanos e espécimes assemelhados. 'Precisamos investigar tudo, mas sem perder o foco de que a crise é hoje. O que aconteceu no passado, no meu governo, é coisa da história', disse FHC, como a sugerir que o tempo transcorrido absolvera o PSDB de suas ligações com o publicitário Marcos Valério".

Esclareceu, ao seu ponto de vista, que o problema é o modelo eleitoral do País, que necessita de uma reforma. Sustenta que, ao empenhar-se em crescer para fazer frente aos grandes partidos, o PT teve que encarar o fato de alguns de seus membros mais influentes foram longe demais e se corromperam. Nesse processo, veio à tona o fato de que suas práticas de campanha eram semelhantes às da grande maioria dos demais partidos. Seus gastos também eram financiados por grandes indústrias, e, isso, desde 1989, na primeira eleição que teve a participação de Lula. Essa é o jeito comum de se declarar o dinheiro ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De outro modo ninguém se elege e faz política no Brasil. 

Admitiu, então, que o "PT meteu o pé na jaca" (20/7), constatando que "boa parte da crise do PT deveu-se ao poder avantajado de Delúbio e Silvio Pereira, a chamada infantaria de Dirceu e da corrente Campo Majoritário dentro do partido. No PT, reproduziu-se a chamada lei férrea das oligarquias, termo cunhado pelo sociólogo alemão Robert Michels, que diz sempre existir numa organização, um grupelho, que manda no pedaço". Ou seja, por causa de poucos a oposição ganhou força descomunal e está empenhada numa operação de guerra de olho em 2006.

Conspiração ou puro sensacionalismo?

No meio do caos político, a revista Época publicou na edição de 15/8 a "denúncia" do ex-deputado Valdemar Costa Neto sobre negociações do PT para conseguir apoio do PL nas eleições de 2002. Mas o fato é que Carta Capital já havia publicado a mesma matéria em outubro daquele ano.

"Quase três anos atrás, muito antes de a revista Época publicar a "revelação" do ex-deputado federal Valdemar Costa Neto como notícia exclusiva, Carta Capital mostrava os mesmos bastidores do acordo entre o PT e o PL. Na edição 213, de 30 de outubro de 2002, reportagem de capa de Bob Fernandes contava as andanças da campanha do então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva. 
O texto relata que na noite de 19 de junho de 2002, véspera do prazo final para o registro das candidaturas no TSE, reuniram-se no apartamento do deputado Paulo Rocha (PT-PA), em Brasília, Lula, José Dirceu, José Alencar, Gilberto Carvalho, o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e o presidente do PL, Costa Neto. Este último argumentava que, sem as fontes tradicionais de arrecadação de recursos, o partido não teria condições de bancar as campanhas dos candidatos nos estados. Era a senha para negociar com o PT uma contrapartida para o apoio a Lula. 

Segundo a reportagem de Carta Capital, os números da negociação giravam em torno de R$ 10 milhões. Em momento algum - tanto em Carta Capital quanto em Época - se diz que naquela ocasião Lula sabia que a fonte de recursos para cooptar o PL seria ilegal." (Carta Capital, 17 de agosto).

Por enquanto, Carta parece ter conseguido ser fiel aos seus ideais sem, contudo, adotar uma postura fanática na defesa cega daquilo em que acredita. Tampouco virou a casaca buscando comodidade. Apesar da perplexidade, continua buscando mostrar os dois lados da crise, fugindo do sensacionalismo.