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Sem dó nem piedade

Danúbia Guimarães 

O cenário político brasileiro nunca passou por um período tão turbulento como o vivido recentemente, ou pelo menos, não de maneira tão clara à população. Com direito até a depoimento de cafetina, acusada de organizar a "distribuição" de garotas de programa em festinhas entre parlamentares, a tragédia grega, teve seu "ponta pé" inicial dado por uma denúncia na revista Veja. Em gravação secreta, o chefe do departamento de contratação e administração de material dos Correios, Maurício Marinho, foi flagrado recebendo três mil reais em propina e admitindo o "oba-oba" na estatal.

Passados alguns dias, a história se desenrolou até o Planalto Central na pessoa do presidente da república, Luis Inácio Lula da Silva. Acusado de saber da roubalheira generalizada envolvendo o PT, seus líderes e outros partidos, foi cogitada a possibilidade de Lula ter usado caixa dois para bancar o segundo turno de sua campanha em 2002. 

Diante da frase de ordem do momento, o famoso "eu não sabia", ao divulgar essas informações a mídia pode assumir pelo menos três posições singulares: acreditar que o presidente realmente não sabia de nada e o defender; acreditar que o presidente está envolvido sim, e que deve pagar por isso assim como a corja corrupta de seu partido; ou, manter-se o mais imparcial e divulgar os fatos tais como eles acontecem - essa última, idealizada pela lei de imprensa.

Lula na mira

O jornal Folha de S.Paulo escolheu sua posição: infernizar a vida do presidente e sua turma. Num "subcaderno" Especial, "Escândalo do mensalão", o veículo não polpou repertório e perspicácia jornalística para alcançar seus objetivos. Prova disso, foi a divulgação de uma entrevista dada por um dos quinze irmãos do presidente, o pedreiro Jackson Inácio da Silva, 19/8. "Falar que ele [o presidente] não sabia de nada é muita ingenuidade. Se meu pai fosse vivo, dava um tapa no pé da orelha dele".

Apelo ao pai morto do presidente parece golpe baixo, não? No entanto, as acusações sutis da Folha, não pararam por aí. Agora, as críticas se voltam ao PT que decidiu romper contrato com o "marqueteiro" Duda Mendonça após seu depoimento, no qual ele admitia ter recebido parte de seu pagamento numa conta nas Bahamas. Ainda na edição de 19/8, na matéria "Presidência rompe contrato com Duda" o jornal satirizava a decisão do PT "só porque ele [Duda] assumiu ter recebido 10 milhões de reais por contas em paraísos fiscais, seu contrato foi rompido. O comportamento foi visto pelo PT como desleal".

Já na edição de 18/8, utilizando-se da citação da estudante de 16 anos, o jornal coloca em dúvida a seriedade do presidente. "Crescemos ouvindo os nossos pais fazendo campanha para o Lula e dizendo que ele era um homem sério. Agora no poder, Lula parece outra pessoa". Enquanto isso no Estadão, manchetes como: "Lula reclama de jogo rasteiro da oposição", "Querem acabar com o meu governo" e "Dirigente petista diz que Dirceu foi o único responsável pelo esquema, defende Lula e pede expulsão sumária de Delúbio". A edição de 21/8 expressa claramente a discrepância nas divulgações entre os meios de comunicação.

Lula é a crise

A editoria de opinião da Folha é o lugar mais utilizado para expor os desejos secretos, ou nem tanto, que os dirigentes do veículo tem em depor o presidente. O ápice da exploração dessa editoria foi no dia 14/08, quando o jornal publicou alguns artigos com títulos apimentados como: "A grande lambança"; "Fantasmas"; "O elogio da mediocridade" e "O vazio do PT". Destaque para o artigo, "Lula é a crise", no qual Carlos Heitor Cony esculacha literalmente com o presidente. "Continuo achando que Lula não é desonesto ou ladrão, é pior. Tinham razão os que julgavam-no despreparado para assumir a presidência".

O negativismo da Folha é tão gritante, que seu próprio ombudsman reconhece o exagero. Na edição de14/08, Marcelo Beraba apregoa: "Em julho de 2005 os dez personagens mais comentados estavam envolvidos com a CPI. O problema maior que vejo na cobertura da crise não é somente o exagero do espaço, mas a forma como ele é utilizado. Falta avaliação da importância dos fatos revelados. Há pouca análise e bastidores que ajudem a entender o que está acontecendo".

A solução para que a informação seja divulgada corretamente já foi dada pelo ombudsman, agora cabe à Folha parar para refletir no verdadeiro papel que ela deve desenvolver como imprensa. A situação da política brasileira não está para aplausos, contudo, aproveitar-se do momento para fazer proselitismo ideológico é antiético. Sem ter provas concretas, o "armagedon" gerado pelo jornal corre o risco de cair em descrédito e levar o próprio veículo à ruína.