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Cartilha
jornalística
Giancarlo Sorvillo
A Dinamarca está de luto. O rei acaba de morrer e seu irmão toma a coroa casando-se com a rainha. Tudo muito rápido e legítimo, menos para o jovem príncipe Hamlet que sente o cheiro de "podre no reino da Dinamarca". Assim, com toda seriedade e meticulosidade britânica de investigação, a verdade vem à tona: seu pai foi assassinado pelo próprio irmão que queria o trono. Uma trama digna de uma das maiores obras do escritor inglês William Shakespeare -
Hamlet, o príncipe da Dinamarca.
A firmeza, pontualidade e competência fizeram da Inglaterra uma das maiores potências do mundo e lhe renderam um destacado lugar na imprensa internacional. Então, no desejo de mentorear países emergentes, principalmente em crise, a imprensa inglesa demonstra estar bem preparada para desempenhar tal papel. Para isso, escolheu o Brasil numa das piores crises de sua história, a do Mensalão.
Tal como na obra de Shakespeare, os jornais ingleses, especialmente o Financial
Times, avisam qual é o "podre do reino da Dinamarca" e, implicitamente, procuram mostrar as condições para uma economia mais forte. Ufanismo? Talvez. Todavia, a maneira como o
Financial Times aborda a crise brasileira mostra certa dose de superioridade européia. Veja o que o jornal diz: "Partidos brasileiros em profunda crise de credibilidade depois que vários deputados aceitaram dinheiro ilegal" (2/8/05).
"A crise também não ajuda o objetivo de a longo prazo aumentar a confiança nas regulações dos investimentos domésticos e internacionais." (20/8/05).
A edição de 20/8 "lamentava" que era a primeira vez, buscando pela memória, que o Brasil tem uma estabilidade de preços e uma democracia competitiva. Entretanto, todos os partidos parecem unidos, em sua má vontade,
a fim de jogar essa conquista pela janela.
Na primeira citação, crise é a palavra central que é intensamente caracterizada por um dos maiores valores ingleses: credibilidade. Na segunda, a palavra confiança tem uma clara intenção de mostrar a verdadeira natureza da crise, que atrapalha as perspectivas econômicas brasileiras. E, finalmente, na terceira citação, outra palavra-chave no vocabulário do sucesso britânico: estabilidade.
Outro ponto que o diário inglês enfatiza é que o escândalo paralisou a agenda de reformas do governo para o crescimento do Brasil. Mais uma palavra importante: crescimento, vital para qualquer país emergente. Assim, a imprensa britânica reuniu seus próprios valores de sucesso numa cartilha jornalística com a finalidade de passar ao Brasil os princípios de um país que, um dia, foi a principal potência do mundo.
Retocando a maquiagem
Mas, se os ingleses procuraram ensinar o governo brasileiro em meio à crise, os norte-americanos se concentraram na imagem do líder máximo do País: o presidente. O principal jornal norte-americano,
The New York Times, na pessoa do correspondente Larry Rohter -o mesmo que no ano passado publicou que o presidente Lula gostava de beber uma cachaça! -, noticiou o seguinte: "A crise é a pior a atingir o governo desde que tomou posse em 2003, prometendo o governo mais honesto e ético da história". (14/6/05). A matéria segue dizendo da "queda de popularidade do presidente e a lentidão na recuperação econômica do Brasil, já mostrando sinais de rendição".
Ao contrário dos amigos de Hamlet, os sobrinhos do Tio Sam dão mais atenção à imagem e à situação complicada em que se encontra o presidente brasileiro. Isso se tornou mais
claro na edição de agosto de 2005 da popular revista norte-americana
Newsweek, que trouxe a crise brasileira na capa: "O teste de Lula". A capa mostra uma foto de Lula com um olhar vago e cansado
na frente de uma parede de pedra, indicando que ele está numa situação difícil e dura. A revista dá atenção às reformas pretendidas pelo presidente, como elas estão sendo afetadas e como isso abala a imagem de Lula.
E declara: "O escândalo iniciou uma revolta civil de proporções raramente vistas na América Latina" (agosto/2005). O principal fruto da crise é o abalo da imagem presidencial.
Newsweek apresentou o tipo de presidente brasileiro carismático e que governa "com o coração", mas está "aprendendo a lição de governar no caminho mais difícil". Ou seja, será que o presidente vai agüentar a pressão? E como fica sua popularidade?
A imprensa de Mickey Mouse diz que uma boa imagem é imprescindível para uma economia forte. Já os jornais dos "príncipes da Dinamarca" recomendam: siga a cartilha e você chegará ao sucesso com pontualidade.

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