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TerRoriZmo no Correio Braziliense

Allan Novaes

''Espantosa como o ataque às Torres Gêmeas, abjeta como a covardia do atirador de Washington e sufocante como o seqüestro dos espectadores do teatro russo foi essa visita macabra que a censura fez à redação do Correio", são as palavras de Isanulfo Cordeiro, editor-chefe do jornal goiano O Popular. Com ares de carrasco e capa de nostalgia militar, a censura voltara. Quão dolorosa e revoltante foi a experiência. O Correio Braziliense havia recebido o mais forte golpe contra a liberdade de expressão desde sua fundação, corando jornalistas e funcionários de indignação.

A equipe de redação parecia não acreditar quando o oficial de justiça invadiu a sede do jornal, acompanhado do advogado do mandante. O Tribunal Regional Eleitoral havia acatado o pedido do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz (PMDB), candidato à reeleição. Roriz queria impedir a suposta divulgação de trechos de fitas gravadas pela Polícia Federal que o envolviam em um escândalo de grilagem de terras públicas.

O desembargador Jirair Meguerian, que determinou a censura prévia, estabeleceu a ''busca e apreensão, com arrombamento ou entrada compulsória, na sede, se houver necessidade, de todos os exemplares do jornal Correio Braziliense (24/10) desde que publique trechos ou a íntegra de conteúdo das fitas de gravação das conversas telefônicas interceptadas por ordem judicial''. Acompanhando a impressão do jornal, o oficial de justiça tinha autoridade para apreender todas os exemplares da edição, caso algum trecho das fitas fossem publicadas.

Não são recentes as batalhas travadas entre Joaquim Roriz e o Correio Braziliense. Somam pelo menos três anos. Como que acostumado a manipular jornais de pequeno porte por meio de alianças políticas, o digníssimo governador desgostou-se tremendamente com a recusa de envolvimento do Correio - o qual apreciava chamar de petista. Desistindo da corrupção, tentou subjugar a autonomia do jornal pela força. Não foi à toa que José Carlos Dias, jurista e ex-ministro da Justiça, disse: "Roriz é um político que não suporta a liberdade de imprensa, quer os jornais de joelhos."

O coronel do cerrado, então, arregimentou seus " jagunços" contra a liberdade de imprensa que, no contexto, tinha como solitário representante o Correio. Na época, além de restringir a grande soma da publicidade oficial para outros veículos, como o Jornal de Brasília, conhecido como porta-voz do governo do DF, Roriz limitava o acesso de profissionais do Correio em eventos que outros veículos tinham livre acesso. Os próprios brasilienses surpreenderam-se ao saber da tentativa de fechamento do jornal, incitada pelo próprio governador em um comício.

Em 2002, o aproximar das eleições trouxe mais efervescência no embate Correio x Roriz. Com a publicação das fitas gravadas pela Polícia Federal sobre a grilagem, o coronel mais uma vez sacou suas armas. Usou o tempo de seu horário eleitoral gratuito na TV para acusar Ricardo Noblat, diretor de redação do Correio, e sua esposa, de participarem em negócios ilegais com o PT. Não obtendo bons resultados, Roriz usou a lei. Impediu que o Correio e outros jornais divulgassem o conteúdo das fitas do escândalo.

O coronel do cerrado estava indo de mal a pior. Demonstrou pulso e firmeza ao bater de frente com o Correio, mas colaborou para engrossar as fileiras do "adversário" ao combater a liberdade de imprensa com atitudes destemperadas e com baixa verborragia - estas, por sua vez, oportunamente noticiadas pelo jornal da capital. Convicto da vitória ao iniciar sua campanha, pois contava com mais de quarenta pontos percentuais à frente do segundo candidato mais bem colocado, Roriz observou - não sem espernear, é claro - seu castelo da reeleição desmoronar. A cobertura do Correio já mostrava seus efeitos. Resultado: Roriz foi para o segundo turno tecnicamente empatado com Geraldo Magela (PT), que crescera assustadoramente nas pesquisas. 

Motivado pelo desespero pré-eleitoral, o tiro de misericórdia foi a censura prévia. Como disse Ana Arruda, presidente do Conselho da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a diferença entre a invasão do jornal e a repressão à imprensa no regime militar é que "a censura não vem mais do Poder Executivo, mas de alguns elementos do Judiciário".

Imbuído do espírito de denúncia em prol da democracia, o Correio participou ativamente do processo eleitoral de Brasília. Para uns como manipulador de votos, um veículo anti-Roriz. Para outros como incentivador da escolha consciente. Como manipulador, o Correio foi mal-sucedido - Roriz venceu. Como promovedor do voto consciente também. Suas denúncias não surtiram efeito em uma população em grande parte ainda não preparada para distinguir os bons dos maus políticos.

As manchetes do dia 24 e 25 de outubro do jornal brasiliense, "Correio é censurado a pedido de Roriz" e "É proibido proibir", respectivamente, traduziam a agonia do jornal em meio ao lamaçal da censura e da repressão. Os gritos de revolta comoveram associações ligadas ao jornalismo e à liberdade de imprensa, jornais de outros Estados - com direito a raro comentário de William Bonner em horário nobre - e até a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). 

Essa foi uma clara demonstração de que o problema citado por Alberto Dines - de que a mídia nacional é freqüentemente surpreendida pelos absurdos locais porque ninguém lembra do Distrito Federal enquanto cidade, mas sim como receptáculo dos três poderes - estava começando a ser percebido e remediado. O despertamento da imprensa nacional será importante para fiscalizar a relação do governador do DF com a liberdade de imprensa nos próximos quatro anos. Há até quem duvide que o Correio sobreviva às prováveis pressões desse período.

Numa visão otimista, as conseqüências de um mau voto perduram por no mínimo quatro anos. Todo povo tem o governante que merece, ironiza o ditado. Pode até ser. Contudo, ainda há esperança para a capital federal. Talvez o Correio não se mantenha incólume na gestão Roriz, mas deverá defender a bandeira da ética e da imparcialidade. Embora tenham o governador que merecem, os brasilienses têm o jornal de que precisam.

                                        


criação: lisandro staut