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Mais do que ler, pensar é importante

Thiago Melo

O trabalho jornalístico nem sempre é um ofício fácil de ser desempenhado. Preservar a ética, imparcialidade, valores e direitos humanos dentro de uma profissão em que prevalecem o lucro, a ideologia adotada e os interesses internos, transforma-se numa missão quase impossível. 

A batalha travada entre os grandes jornais, e entre os pequenos também, é bastante intensa. Por vezes, o fato em si, é abordado com pouca importância. Já a opinião do veículo, seu crédito, a forma com que esse conduz a repercussão da notícia é decisiva na formação da opinião dos leitores.

A notícia pode ser tendenciosa desde o título até expressões diretas no texto. Outras questões a serem levadas em consideração são os espaços reservados para determinadas matérias. Quanto maior o espaço, maior a importância atribuída pelo jornal. No entanto, referências mais seguras a serem analisadas seriam as matérias de capa, as chamadas, ângulos das fotos e, principalmente, os cadernos reservados a artigos opinativos.

Preferências veladas

O caso do jornalista, Larry Rohter, do jornal The New York Times é um exemplo de como interesses existem em qualquer meio de comunicação. As edições do jornal O Estado de S. Paulo, do dia 12 ao dia 16 de maio de 2004, deram grande ênfase em cada detalhe ocorrido entre as declarações do jornalista e as decisões tomadas pelo governo de Luis Inácio Lula da Silva.

Durante os cinco dias, Larry Rohter foi matéria de capa, sendo destaque em três das cinco edições. A expectativa de como Lula reagiria à matéria redigida pelo jornalista existia por parte de todos os veículos. O impacto que teria nas relações do Brasil com os Estados Unidos e outros países também era uma preocupação por parte de pesquisadores, economistas entre outros.

Porém, é visível a posição do jornal ao ir de encontro às decisões feitas pelo presidente. Na edição do dia 13 de maio, a chamada de capa indicava: "EUA condenam expulsão de jornalista; 'NYT' vai recorrer." Priorizar a opinião do governo americano seria a maneira mais inteligente de abordar o caso? É obvio que os americanos não iriam aprovar tal decisão. Ainda na mesma edição no espaço intitulado "Fórum dos Leitores", sete das oito cartas publicadas eram referentes à posição de Lula. Evidentemente, nenhuma aprovava a decisão de retenção do visto do jornalista. De acordo com o próprio jornal, as cartas podem ser resumidas e selecionadas.

Já na edição do dia 14 de maio, foi publicada uma das raras matérias apresentando pessoas a favor da decisão do governo Lula. Essa declara que o ex-ministro da Justiça apóia a decisão do atual presidente. Porém, no decorrer da notícia, a pessoa de Falcão é associada a momentos escuros do país, como o governo Geisel, em que também foi ministro. Enfatiza o fato do ex-ministro ser conhecido como o homem que nunca tinha nada a declarar. Além de aderir ao golpe militar de 1964 e ser idealizador da lei que restringiu os meios de comunicação durante as campanhas eleitorais de 1974. A matéria ainda adjetiva a situação: "... defendeu a dura medida de Lula". 

Ao todo, nas edições do dia 12/04 ao dia 16/04, foram mais de trinta os espaços destinados a tratar sobre o assunto. Entre esses, artigos, matérias e opinativos, tanto da redação quanto dos leitores. A linha de raciocínio, no entanto, não se diferencia da matéria citada acima.

Preservação de credibilidade

Esta não é uma tentativa de criticar o jornal quanto ao seu ponto de vista em relação à notícia. A imparcialidade deveria ser uma atitude básica de qualquer jornalista comprometido com a verdade dos fatos e a análise de ambas as partes envolvidas. 

É preciso entender que grandes jornais, como o Estadão, possuem prestígio significativo, credibilidade e influência em todo o País. No entanto, o leitor precisa ser respeitado. Induzir aqueles que lêem uma opinião pré-formada pela ideologia do veículo é um atentado ao direito de liberdade de pensamento. Poucos são os leitores que notam estarem caminhando com as "pernas de outros", e voltam a olhar criticamente, não só para o fato em si, mas para a forma como o esse está sendo exposto.

 

                                       


criação: lisandro staut