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Uma
televisão de papel
Gabriel Ferreira
No jornalismo, o hoje é passado e a preocupação é com o amanhã. No início dos anos 80 surge alguém com um ideal de tornar esse amanhã mais atrativo, mais colorido. Al Neuharth foi um dos fundadores do jornal
USA Today, que surgiu trazendo aos jornais impressos um formato novo, com páginas extravagantemente coloridas, forrado de gráficos e textos curtos.
O jornal americano USA Today, baseado principalmente em notícias curtas sem profundidade, foi criado, segundo Neuhart, "com a preocupação de atrair a 'geração televisão' utilizando as mesmas armas do veículo: muitos recursos visuais e concisão de informação". No final dos anos 70, os Estados Unidos não liam jornais. Capturar a atenção desta nova geração era o objetivo do diário.
Os diários americanos com mais tiragem nos Estados Unidos são o Wall Street Journal e o
USA Today. Ambos estão sempre colados um ao outro com 1,8 milhão de exemplares diários. O
USA Today construiu uma marca de peso ao longo de vinte anos imprimindo a história. Ele tornou as páginas cinzentas e sem vida de um jornal em algo chamativo e "interessante" de se ler.
Para a imprensa, o que está na moda, o que se é falado ou está nas bancas ou nas rotativas a caminho delas. No momento, nunca o Brasil esteve tanto nas bancas. Não há ninguém que não saiba sobre o que acontece no Brasil ou como vai o governo Lula e suas viagens pelo mundo.
Uns dos interesses principais da imprensa é com os processos sociais ou políticos de países desenvolvidos ou em desenvolvimento. O Brasil se encaixa exatamente neste perfil. Pena que a imagem que o
USA Today transmite do País é uma imagem de "País-viciado-em-esportes" ou de "País-abundante-em-desgraças".
Só esporte ou desgraças
Ultimamente a América do Norte tem conhecido um Brasil mais ligado a esportes e a desgraças do que ao tradicional "samba" ou ao "rei Pelé". Mais de 65% das notícias curtas e objetivas do diário que falam sobre o Brasil versam sobre esporte. Os outros 35% abordam problemas ligados à segurança interna do País.
O vigésimo oitavo ocupante do ranking mundial de tênis, Gustavo Kuerten, é notícia. O número dois da Fórmula 1, Rubens Barrichello, é notícia. Na Fórmula Indy, o ex-corredor Gil de Ferran é notícia. Até Curitiba é notícia por ter sido escolhida para ser um dos locais das eliminatórias de canoagem para as Olimpíadas da Grécia.
O mais interessante é que o estado político do País, como a última visita que o presidente Lula fez ao presidente norte-americano George Bush, mal é mencionado, assim como a situação financeira brasileira face à economia mundial. Pelo visto, o que realmente interessa ao
USA Today são os números apurados para as olimpíadas ou o número exato de condenados mortos nas rebeliões que acontecem nas prisões brasileiras.
"38 presos mortos em uma brutal rebelião presidiária no Brasil" é um exemplo de uma das manchetes do
USA Today. Acompanhando este título tão "sugestivo" está uma foto de um prisioneiro, espreitando por um buraco feito na parede de sua cela, com um ar de desesperado e sofrido. As imagens que o impresso propaga do Brasil são as de um povo totalmente sarado e suando por praticar esporte e de um povo sofredor e criminoso, merecendo somente a prisão por seus crimes horrendos.
"Bolas trocadas"
A visão não é falsa, mas o foco sim. Tendenciosidade é normal no jornalismo, especialmente se existem menos de 15 grandes grupos de comunicação que monopolizam a informação na maior e mais poderosa nação do mundo. O modelo jornalístico do
USA Today estimula a leviandade e a superficialidade. O jornal exige pouco ou quase nada de seu leitor, pois não explica ou aprofunda suas notícias.
"Rebeliões nas prisões", "furacões que devastam Estados", "burlas no sistema de cartões de crédito", "1.350 tropas brasileiras que chegam para ajudar a ONU no Haiti", "jogadores de tênis bem-sucedidos", "pilotos de corridas vitoriosos" e "capitais estaduais brasileiras que são selecionadas em prol do esporte mundial" são alguns dos temas mais variados que o
USA Today utiliza para pintar um quadro exagerado e interessante do Brasil.
Parece que o Brasil é um País de extremos. Ou só há esporte ou só há criminalidade. E isto é o que interessa ser impresso por jornais de grande porte. No final das contas, quem imprime escolhe o que quer imprimir por ter o poder, e quem sai impresso vive sem poder de escolha sobre o que vai ler.
A imprensa não pode mudar o amanhã do Brasil, mas os Estados Unidos podem mudar o ponto de vista de sua imprensa a respeito do Brasil. Querer é poder.


criação: lisandro staut |
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