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Sobre censura e imperialismo

Fernando Torres

No Brasil, a história da imprensa confunde-se com a da censura. Muitos chefes da nação já puniram os homens da imprensa por considerar suas linhas injuriosas. Dom Pedro I, ainda nos primórdios da independência, perseguiu os libertários Luís Augusto May, dono de A Malagueta, e Líbero Badaró, do Observador Constitucional, entre outros. Deodoro da Fonseca mandou depredar a Tribuna Liberal por sua linguagem "excessiva". Getúlio Vargas aumentava ou diminuía as verbas e o poder de circulação de O Cruzeiro conforme os adjetivos que seu governo recebia. Já no regime militar, Emílio Garrastazu Médici expulsou o jornalista francês François Pelou por divulgar detalhes do seqüestro do embaixador suíço Giovanni Bucher. Mais recentemente, Fernando Collor processou a Folha de S. Paulo, não sem antes mandar invadi-la.

Pensava-se que este tipo de problema já havia sido resolvido com a solidificação da democracia brasileira. O episódio da matéria do correspondente do jornal The New York Times, Larry Rother, evidencia um retrocesso. A decisão do presidente Lula - já revisada - de cassar o visto do jornalista denuncia que os censores, vez ou outra, ainda saem da cova.

Ainda é cedo para dizer que a censura voltou sob a tutela presidencial. Melhor pensar que o impulsivo Lula tenha dado a ordem sob a pressão do momento e a aprovação de milhões de brasileiros "patriotas" que sequer tiveram acesso à matéria original.

Preocupa, no entanto, a nebulosidade dos argumentos daqueles que, passado o furacão, ainda concordam com essa decisão. O porta-voz da Presidência, o jornalista André Singer, raciocina em artigo na Folha que "a liberdade de imprensa não pode servir de pretexto para ser leniente com quem difama, injuria e calunia". Já para o secretário de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica, Luiz Gushiken, a matéria estaria "a serviço de postura de governos centrais que desprezam a soberania alheia, buscam interferir em questões internas e tentam impor visão unilateral sobre questões que, num mundo cada vez mais complexo, exigem outra ótica de solução para os conflitos". 

Percebe-se nas entrelinhas do artigo de Singer e explicitamente no "empolamento" da declaração de Gushiken a noção de imperialismo. Tradução: a reportagem é o primeiro passo de uma conspiração norte-americana contra Lula e o Brasil.

Há, contudo, uma confusão de fronteiras e limites. Primeiro, o New York Times não é os Estados Unidos - ao contrário, é um dos maiores críticos atuais de sua política internacional. Segundo, a reportagem não fazia críticas diretas a Lula; trazia a público uma preocupação de bastidores, comentada aqui e ali pela imprensa brasileira. Terceiro, um erro não justificaria outro.

A matéria de Larry Rother, aliás, mostrou-se bem-equilibrada. O jornalista procurou entrevistar os porta-vozes do presidente a respeito das críticas sobre o hábito de beber. Estes se recusaram, alegando que não dariam respostas formais a acusações infundadas, considerando-as ''uma mistura de preconceito, desinformação e má-fé". Apesar de não serem citados nominalmente, assessores e simpatizantes de Lula tiveram espaço para explicar os deslizes do presidente. Além disso, Rother contrapôs a acidez de Diogo Mainardi, colunista da Veja, à sensatez de Ali Kamel, de O Globo. Talvez o maior pecado da reportagem seja o título "Hábito de beber de Lula se torna preocupação nacional". Engano do correspondente. As decisões do governo quanto ao aumento do salário mínimo e ao fechamento dos bingos ocuparam com muito mais freqüência o imaginário popular nos últimos tempos do que os tragos na adega do Planalto. 

Digamos, porém, que a reportagem fosse realmente difamatória ou que Lula a considerasse como tal. Caberia a ele, como civil, exigir uma retratação do jornal e não abusar do poder da Presidência como retaliação ao jornalista. Talvez uma resolução formal com bom humor fosse a alternativa mais viável e diplomática. Entretanto, em nenhum momento, a adoção da censura sob a roupagem da cassação seria justificável - mesmo diante da obsessão do antiamericanismo.

Nesse caso especificamente, o argumento do imperialismo convence apenas jacobinos e xenófobos. Para estes, a decisão inicial do presidente era a mais acertada. Curiosa essa visão: um problema realmente difícil (o imperialismo) ser sanado com a ressurreição de outro (a censura), pior ainda.

                                       


criação: lisandro staut