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Um exemplo de
mediocridade
Andréia Moura
Uma grande floresta dominada por aglomerações aborígines faz bem o tipo de idéia americana sobre nós, os brasileiros. Nosso presidente é bêbado, nossa polícia corrupta, o número de marginais aqui é maior que o número das estrelas de nosso céu. Nosso maior bem: a Floresta Amazônica. Somos produtores de carnavais e mulheres bonitas, nossos filmes são polêmicos e nossa música "diferente".
Por que a opinião de um grande jornal americano seria diferente da idéia popular? Afinal, são eles, os jornais, que formam o consenso público e não poderíamos esperar mesmo, nada mais justo, mais verdadeiro, nas notícias que publicam sobre nosso País.
O Los Angeles Times nas últimas semanas tem dado um enfoque até significativo ao Brasil. Se levarmos em consideração o espaço gigantesco dado aos conflitos no Oriente Médio e as notícias européias, esse teria sido um esplêndido avanço, talvez um aumento de credibilidade. Porém, a verdade é que esse interesse tão repentino tem motivos bem pessoais.
A polêmica criada pela expulsão do jornalista Larry Rohter do Brasil foi explorada ao máximo pelo periódico. Em uma das primeiras reportagens sobre o assunto, publicada em 12 de maio e intitulada "Repórter é expulso por desafortunada história", com tom irônico, informou: "Brasil diz que expulsará correspondente no
New York Times por escrever que Lula andava bebendo demais." Em outra matéria de 13 de maio, o jornal colocou um título comprometedor: "Comunidade dos jornalistas brasileiros levanta bandeira vermelha: Liberdade de imprensa questionada depois que repórter é obrigado a retirar artigo ofensivo sobre presidente Lula". A reportagem comentava que o artigo de Rohter podia ter sido uma resposta a "certas" provocações que Lula fez aos Estados Unidos em recentes conversas comerciais.
Depois de esgotado o assunto, o LA Times publicou um final apoteótico. Na reportagem de 15 de maio, intitulada "Brasil diz: Jornalista pode ficar", enfatizou frases comoventes de Rohter: "Nunca tive a intenção de ofender a honra do presidente. Tenho grande respeito pelas instituições brasileiras e lamento a polêmica que meu artigo criou."
Um outro exemplo desse protecionismo "natural" se refere ao assassinato do casal norte-americano no Rio de Janeiro. Em matéria publicada em 5 de maio, o
LA Times informou que finalmente o assassino tinha confessado o crime. A matéria também trazia uma crítica sutil a nossa polícia que, segundo o jornal, é "lenta e desnorteada".
Afora esses rompantes de interesse, as notícias que abordam o Brasil se resumem a filmes, música, futebol e violência. "Homem armado rouba carro cheio de rifles da Força Aérea Brasileira"; "Brasil empata em jogo com a França"; "Carandiru: filme de Hector Babenco que fala sobre prisão brasileira chega às telas"; "Cantor brasileiro lança CD de jazz em Nova York"; são as únicas informações que se pode encontrar sobre nosso País.
Comparada ao espaço que Iraque, Europa, Austrália e até mesmo Argentina recebem no jornal, nossa participação é nula.Não podemos dizer, no entanto, que a postura do jornal é tendenciosa. Primeiro porque eles não nos consideram significativos na visão mundial. A maneira como tratam nossa política e economia, com condescendência, mostra o quanto desconhecem da verdadeira realidade brasileira.
É verdade que são protecionistas, mas quem não é no que se refere ao que é seu? E o que poderíamos esperar de uma nação governada por alguém limitado a não ser opiniões irrelevantes também?
Existe um episódio da série norte-americana "Os Simpsons" em que a família faz uma visita ao Brasil. Para quem já ouviu falar ou já assistiu ao capítulo, mais uma prova de que nos vêem como uma grande floresta criadora de marginais. Como um País dessa "categoria" poderia ocupar certa notoriedade em um jornal nacional? Antes de analisarmos a posição desse tipo de periódico em relação ao Brasil é necessário ensiná-los quem somos. Na verdade, antes disso, o
Los Angeles Times, bem como a população norte-americana, deveria receber algumas lições de história, geografia e até, quem sabe, de cultura geral. Isso sempre amplia horizontes, minimiza a mediocridade.


criação: lisandro staut |
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