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Brasil com Z

Sandro Heringer

Houve uma época em que alguns acreditavam que Buenos Aires era a capital do Brasil. E que em nosso território, as "anacondas" atravessavam as ruas disputando espaço com uma população que se dividia entre jogar futebol e pular carnaval durante os 365 dias do ano. A visão que o mundo tem do país reflete a dimensão do valor e do respeito ao bem mais precioso: o povo. 

O representante maior desta nação tupiniquim ganhou destaque nas páginas de um dos jornais mais importantes e respeitados dos EUA, o imponente The New York Times. A imagem do presidente Luís Inácio Lula da Silva foi estampada para o mundo via texto tendencioso do jornalista Larry Rohter, no qual a reportagem insinuava que havia uma preocupação nacional com os hábitos de Lula consumir bebida alcoólica. Transformando nosso presidente, no Boris Ieltsin da "cerva gelada".

Brasil quando escrito com "z" provoca sobressaltos de patriotismo, surgindo indagações analíticas sobre a mídia americana, por exemplo, cuja visão está quase sempre direcionada para o próprio umbigo. Mas sobre o que, e de que forma, a imprensa da terra do "tio Sam" escreve sobre esse país, cá embaixo, chamado Brasil? Tendo em foco um dos mais populares tablóides nova-iorquinos, o The New York Post.

O tablóide 

The New York Post é o segundo maior tablóide da cidade de Nova York perdendo apenas para seu concorrente, o New York Daily News. O Post faz parte do conglomerado bilionário da News Corporation, de propriedade do magnata australiano Rupert Mordoch, que possui dentre outros veículos de comunicação, a Fox Television.

Por se tratar de um tablóide em que o enfoque maior é a cobertura e divulgação dos acontecimentos locais do distrito de Nova York (Bronx, Brooklyn, Queens, Staten Island e Manhatan), os fatos estrangeiros têm pouco destaque. Diferente do NY Times, um jornal com amplitude mais nacional. O Brasil é notícia no Post por meio dos ícones nacionais que despontam para o mundo - Gisele Bündchen, Ronaldo e companhia - ou dos fatos curiosos que despertam interesse e relevância para os leitores americanos. 

Sensacionalista na sua essência, alguns episódios negativos, porém verdadeiros, ocorridos no Brasil, são ingredientes preciosos para o tempero do "fait divers" americano. A reportagem publicada no dia 26 de maio trouxe a manchete "Amnesty: Brazil Police Killed Suspects" 
("Policial Suspeito de Assassinato é Perdoado"). O jornal abordava a deficiência da segurança pública do país, assim como a precariedade das delegacias e penitenciárias. E da desqualificação e má conduta dos policiais, inclusive com denúncias de métodos de tortura praticados pelas autoridades. Verdades notórias proferidas por estrangeiros, eleva ao cubo a vergonha nacional.

Verdades que ganharam movimento no chocante filme de Hector Babenco, Carandiru (2002), baseado na rebelião do presídio paulista, no qual o jornalista Lou Lumenick descreveu no artigo do dia 14 de maio, como sendo violento, brutal e profano. Nesse mesmo dia, na coluna "Weird But True", uma espécie de "Isto é incrível" versão impressa, o tablóide ironizou uma ocorrência policial na cidade de São Paulo, em que menores delinqüentes armados, incluindo um menino de cinco anos, invadiram uma sorveteria exigindo doces e sorvetes. A "gangue da pesada", apelidada pelo jornal, foi capturada em seguida pelos policiais locais.

O Brasil não é só violência. É também, hoje e sempre, futebol. A superioridade brasileira no esporte é incontestável nas páginas do Post. O assunto rende várias reportagens celebrando os craques bons de bola com expressões do tipo, "Viva Ronaldo" e "City goes Brazil nuts for soccer" ("Cidades brasileiras se entusiasmam com o futebol"), referente à paixão contagiante pelo esporte dos moradores brasileiros em Nova York. 

Tratando-se de outros países, o Post já foi boicotado pela posição editorial. Segundo a jornalista Bárbara Ferguson, numa matéria publicada no dia 25/06/02 na Arabe News, moradores de origem árabe de Nova York ficaram revoltados com o antiislamismo praticado pelo tablóide. Mostrando sua parcialidade, o jornal O Globo (11/05/03) relatou que "durante a guerra que derrubou Saddam Hussein, o jornal literalmente promoveu uma campanha contra produtos franceses consumidos em Nova York. E trocou, em fotos, o rosto do presidente francês, Jacques Chirac, pela de uma doninha, animal que simboliza a capacidade que um inimigo mais fraco tem de atacar o mais forte. Seguidas vezes, durante a campanha, o Post usou a imagem da doninha para se referir aos franceses".

A maioria dos leitores nova-iorquinos não está nenhum pouco interessado nas atitudes do jornal. Fato comprovado devido aos acentuados crescimentos nas circulações em dias úteis de 9,3%, segundo o relatório do Audit Bureau of Circulations, que fez a análise do semestre entre outubro de 2003 e março de 2004.

Parece que esse estigma de ser visto como país do futebol, do carnaval e das mulatas sensuais, agora está embalado ao som rasgado de balas de fuzis, continua a existir. E como dizia Caetano Veloso, no tempo em que este cantava em português, "isso aqui, ô, ô é um pouquinho de Brasil iaiá", com sotaque americano é claro. 

                                       


criação: lisandro staut