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Imprensa canarinho

Vanessa Candia

Falar sobre como somos vistos pela imprensa norte-americana é fácil. Samba, favela e violência. Raras são às vezes em que o País é mencionado destacando alguma coisa boa. Salvo o esporte. Para ser mais específico, futebol. Sendo assim, dá pra se ter uma vaga idéia do espaço dado ao nosso País pela democrática imprensa estadunidense. O mesmo já não acontece por aqui. Um espirro vindo "de cima" é suficiente para causar um tufão entre nossa submissa imprensa brasileira.

Entre os principais veículos, dois merecem destaque especial: Veja e Carta Capital. A primeira enxerga os Estados Unidos de acordo com a pauta. Ora bonzinhos, ora mauzinhos. Já para a segunda, os Estados Unidos é um verdadeiro terror apocalíptico dirigido atualmente por uma verdadeira besta. E mesmo assim, a Carta tem apreço especial quando o assunto é Estados Unidos.

A Carta Capital também dá muito espaço para notícias relacionadas aos Estados Unidos. O que diferencia, com relação a Veja, é o enfoque dado. As matérias sobre o assunto têm um toque de sensacionalismo. A começar pela capa. Edições seguidas (31/3 e 5/5) mostram um dos símbolos dos Estados Unidos, o tio Sam, com um ar tanto que "maléfico". 

Mas uma coisa precisa ser levada em consideração: a Carta é uma revista, na maioria das vezes, de esquerda. Fato que Mino Carta, diretor de redação, deixou bem claro quando confessou seu favoritismo por Lula durante a campanha à Presidência da República. Tempos em que Lula era da esquerda. Carta escreveu num artigo intitulado "Carta Capital escolhe Lula" criticando o modelo. "Sempre americano. Já foi europeu, sobretudo francês, deixou de ser há muito tempo. Mas a cópia dos Estados Unidos é de má qualidade. No jornalismo, por exemplo." (2/10/02)

Muito antes dessa entrevista, a revista já investigava quais as verdadeiras relações entre poderes do Norte e do Sul. No dia 17/4/02 a matéria de capa "A prova: Como os EUA pagam contam da Polícia Federal" indicava que o movimento anti-Estados Unidos não é de hoje. 

Tanta perseguição contra os Estados Unidos rende alguns estouros. Como uma entrevista de 17 páginas com o ex-chefe do FBI no Brasil, Carlos Costa. "Os Estados Unidos grampearam o Alvorada" (24/3/04) trouxe revelações a respeito de líderes estadunidenses de vários períodos da História. A edição anterior falou sobre os arapongas que viveram e vivem no Brasil: "A lista dos espiões americanos no Brasil" (31/3/04).

Quem se lembra de Mad, personagem dos quadrinhos. Figura engraçada e irreverente. Pois é. Não se sabe se foi proposital, ou mera semelhança, mas quando o assunto é Bush, o retrato do presidente parece a cópia do sumido Mad. A revista expõe todas as trapalhadas do governo Bush, mostrando o presidente como um líder impulsivo e imaturo. "E agora chefão?" (10/4/02); "E o Júnior foi à guerra" (26/03/03).

Carta Capital virou quase que um antônimo de Estados Unidos. Se pedissem a Mino Carta escolher um lema, plagiaria: "Onde há os EUA, sou contra".

Look

Em contrapartida, a Veja deveria ter o nome mudado pra Look. O que a Carta tem contra os Estados Unidos, a Veja tem a favor. Deve-se levar em consideração a forte influência que Roberto Civita trouxe de suas estadas pela terra de tio Sam.

Praticamente tudo na revista denota americanismo. Ultimamente, algumas matérias têm feito fortes críticas ao governo e ao próprio Bush. Um exemplo foi a reportagem da edição de 2/6: "Bush nos humilhou diante do mundo", em que AL Gore revelou a vergonha que Bush tem feito os americanos passarem diante do mundo. Quando o assunto é George W. Bush, eles conseguem ser tão críticos quanto outros veículos. No entanto, com relação a outros assuntos, eles sempre são melhores.

Mas a marca forte desse "patriotismo norte-americano" está nas linhas das reportagens. Em matérias sobre saúde ou descobertas científicas, sempre são citados profissionais americanos. A edição de 9 de junho fez uma entrevista com uma médica, também norte-americana, destacando o tabagismo. Tais assuntos poderiam ser tratados com igual, ou mais competência, por médicos brasileiros. 

É como se tentassem - e porque não dizer que já conseguiram - infiltrar toda a cultura norte-americana por meio das páginas da revista. Também não se deve levar ao extremo, não noticiando ou valorizando nossos produtos e profissionais. Mas se dá pra utilizar um "made in Brazil", para que importar?

Algumas vezes esta tendenciosidade é transmitida nas capas. Como a edição de 15/10/03, em que traz como matéria de capa "Brasil peita os EUA na Alca". Coragem ou estupidez? A reportagem "7 perigos de dar uma banana para a Alca" descreve o porquê, na opinião da revista, o Brasil tem que participar da aliança. Que é importante para o Brasil essa "união", é fato. Mas agir de modo a concordar com todas as imposições norte-americanas é questionável.

Algumas contradições acontecem tanto na Veja, quanto na Carta. A última, que parece ser antiamericana, lucra com alguns anúncios de empresas estrangeiras. Para ser mais específica, empresas norte-americanas. Já a primeira faz anúncios, matérias, reportagens, divulgações, enfim, é praticamente uma revista norte-americana para sul-americanos.

Mas como já foi dito no começo, analisar como a imprensa norte-americana vê o Brasil é fácil. Mas discutir como alguns veículos vêem os Estados Unidos, não é tão fácil assim. Afinal, a imprensa deles tem "olhos de águia", enquanto a nossa é um frágil canarinho. 
 

                                       


criação: lisandro staut