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Sob
as asas do poder
Dayse Bezerra
Um dia um brasileiro teve um sonho em que a corrupção foi exterminada de vez do governo. Políticos cumpriam o que haviam prometido. E os veículos de comunicação eram totalmente imparciais quanto à formação política de seus adeptos.
Entretanto, a realidade é outra. Dentro da maioria dos meios de comunicação - por mais respeitado, renomado e competente que seja o veículo -
existe um partidarismo. Alguns são bem explícitos, outros implícitos. A revista
Veja, em análises baseadas nas matérias publicadas em suas edições,
revela para que sigla "aérea" é mais simpatizante: estrelas ou tucanos?
A Veja não levanta publicamente sua bandeira partidária, mas em um jogo de palavras dá maior ênfase para alguns partidos do que para outros. No Congresso Nacional é uma disputa acirrada entre PT e PSDB. Como atualmente o PT está no auge do poder político, a
Veja, "espertinha", procura estar perto do mais forte e poderoso para
se manter bem-relacionada com a política e aberta para trocas de forças. É claro que está sempre em alterações, conforme o outro partido
receba forças.
Esta é uma boa justificativa para a Veja: proteção e segurança. E quem não gosta de se sentir assim. Em todas as edições, a garantia do assunto "política brasileira" é de praxe. Matérias e reportagens especiais são destaques na revista.
A matéria de 2/6 chama a atenção dos leitores com o título "A eleição que o PT não pode perder". Nas entrelinhas da matéria, dados de "pesquisas recentes"
mostram que as chances dos petistas vencerem as eleições de 2004 são reais em quase todas as prefeituras que administram. "A diferença entre o PT e o PSDB é que o forte dos tucanos sempre foi à disputa pelos governos estaduais, enquanto os petistas historicamente apresentam desempenho mais vistoso nos pleitos eleitorais", enfatiza a matéria. E complementa citando que "aumentou o número de candidatos a prefeito, ampliando suas chances de vitória".
A capa de 9/6, "Palocci ganha todas", revela certa simpatia do veículo pelo ministro. A foto
do ministro Antônio Palocci com "ar de superioridade" confirma a chamadinha afirmativa: "O ministro mais popular e mais poderoso". Por meio de elogios ao ministro, a reportagem
conta detalhes do papel do ministro na política do País. "É hoje - nos campos pessoal e profissional - o ministro preferido de Lula".
A popularidade de Palocci é reforçada com vários infográficos da pesquisa exclusiva do Ibope para o publicitário Duda Mendonça. A reportagem ganha mais credibilidade com depoimentos de políticos que falam da boa fama de Palocci. "Agora os resultados começam a aparecer, Lula e Palocci são quase uma pessoa só",
enfatiza o deputado Walter Pinheiro. É muita coincidência de uma só vez.
Na matéria "Intrigas da Corte" (23/6) a briga começa por um erro de interpretação do
ministro de Assuntos Institucionais, Aldo Rebelo. Quando o ministro leu na edição anterior sobre denúncias de espionagem em que o nome do
Ministro da Casa Civil, José Dirceu fora mencionado, Rebelo entendera ser um dos envolvidos. A briga foi
feia quando Rebelo bateu boca com Dirceu em seu gabinete. A
Veja entrou em ação e por meio de relatos de quatro interlocutores dos ministros - dois de cada lado - foi esclarecido o mal-entendido com provas mais concretas em defesa de Dirceu. A
Veja é uma revista tão influente que é capaz de provocar conflitos e brigas políticas.
Companheirismo
Isto pode ser chamado como trocas mútuas de confiança. O governo assina a
Veja para ler. E a Veja se torna "companheira" para ouvir o governo. Essas parcerias políticas são alteradas quando os partidos mudam. Mas, desde o final de 1969 a
Veja encontrou o seu coração editorial, a cobertura política, que apenas em 1974 trouxe lucros para a revista.
Em 1977, as redações e editorias da Veja ficaram bastante conturbadas. Principalmente com a saída de Mino Carta, um dos fundadores da revista, e a entrada do novo diretor de redação, José Roberto Guzzo e seu diretor adjunto, Sérgio Pompeu. Motivo de tal politização foi resultado da efervescência do Brasil no mesmo
ano em que Ernesto Geisel fechou o Congresso Nacional para impor muitas leis - "o pacote de abril", influenciando assim a
Veja.
Lembranças históricas do período Collor em 1988, quando a Veja foi um dos principais palcos de aparição de Fernando Collor de
Mello. Uma trajetória construída pela revista desde a primeira entrevista
a Veja, em que buscou o cenário nacional com a cartada moralizadora. Acompanhada logo após com sua eleição como presidente do País e o declínio com o escândalo político. Tema para muitas capas da
Veja, como "Collor de Mello, o caçador de Marajás" (23/3/98) que gerou muita polêmica na época.
Essa capa, e tantas outras, flagraram novos personagens da cena política, como em 1985 com Lula "O PT cresce e
agita" e, em 1986, com Ronaldo Caiado, "A força da UDR".
Consciência política não está apenas na hora de escolher o candidato nas urnas, mas também na hora de ler sobre assuntos políticos. Mas o importante de tudo isso é que tanto os eleitores como os comunicadores querem a mesma coisa: proteção e segurança. Que
coincidência!


criação: lisandro staut |
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