editorial | especial | debate | imprensa em foco| links
 
| cultura | perfil | nostalgia
  olho vivo | canal do leitor | e-mail | expediente

anteriores
| próximas edições |
inicial


Elogios oportunos 

Lêda Maria

Democratização, equilíbrio e respeito. Objetivos raros, principalmente quando se trata de um mundo jornalístico caracterizado pela parcialidade, sensacionalismo e desconsideração com o público. A ética é imolada em busca dos interesses e o verdadeiro jornalismo vai desaparecendo em cascata.

Mas como toda regra tem suas exceções, a revista Carta Capital demonstra provas que sempre existe luz no final do túnel. Assim, ela vem abordando a implantação do Conselho Federal de Jornalismo. E pincelar esse tema implica em discutir não apenas a liberdade de imprensa, mas a liberdade de consciência, o direito à independência de idéias e a função do patronato. 

Há cerca de dez anos, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) estuda a proposta de um projeto como o Conselho Federal de Jornalismo. Uma idealização que, longe de ser uma conquista da categoria, representa a supremacia aristocrata sobre os reais interesses da sociedade. Objeto das mais acirradas críticas e acerbados elogios, o Conselho traz à tona o autoritarismo do governo e a reação dos profissionais da informação. Aliás, acusados de "covardes" pelo ilustríssimo presidente da República.

Onde ficam os patrões nessas horas. Uma vez que, em muitos casos, o jornalista reflete a visão do patrão? De acordo com Luiz Alberto Weber, repórter da Carta, "a idéia do CFJ integra um conjunto de ações nebulosas, com risco de aplicadas, tornarem-se pouco democráticas".

Embora desde o surgimento tenha se mostrado contra a concentração do poder da mídia, e aposte inclusive numa reestruturação das empresas de comunicação, a Carta Capital vê nesse projeto um tom de arbitrariedade do Palácio do Planalto. "Que autoridade um grupo de conselheiros, escolhidos sabe-se lá de que forma, teria para definir se um jornalista age de acordo com as normas éticas da profissão?", indaga Luiz Weber, na reportagem "Excesso de Peso" (18/8).

Assim, o veículo de forma velada, mas firme, revela sua opinião. Não como uma forma de coibir o senso crítico do leitor fazendo-o digerir apenas o que é apresentado, mas instigando a consciência crítica e o respeito próprio. 

Saia justa

Entretanto, o presidente Lula parece revela certa simpatia com o veículo. Se foi somente um suporte para fazer apologias ao órgão de fiscalização jornalística não se sabe. O fato que sugere tal colocação aconteceu por decorrência da comemoração dos dez anos da revista numa premiação para as empresas mais admiradas no Brasil. O fato foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo (31/8). No discurso, Lula aproveitou o ensejo e as circunstâncias para mencionar os aspectos positivos do Conselho. O evento, "As empresas mais admiradas no Brasil em 2003", reafirmava a importância do semanário no Brasil. 

A manobra do presidente em exaltar a participação da revista na democratização do País, em que ele inseriu tais conjecturas, impossibilitavam críticas contrárias as colocações do presidente ante Mino Carta, que recebeu as congratulações.

Aliás, na matéria citada, a repórter também mencionava os elogios feitos a Mino Carta pelo presidente. Lula prescrevia as lutas de Mino que, como "jornalista passou por vários veículos e resistiu a pressões de chefes para contrariar sua 'dignidade'". Ao construir seu discurso exaltando Mino Carta, Lula suprimia qualquer intervenção do jornalista. 

No momento, não havia qualquer atitude a ser tomada por se tratar de uma solenidade. Mas, na edição de 8/9 Mino Carta defendeu sua posição e resumiu-a num trecho: "A tese de Carta Capital, ditada pela aspiração a uma democracia autêntica, é de que não se trata de controlar os profissionais, e sim seus patrões, 'os desastrados senhores da mídia, atolados em sua própria incompetência'". A segunda citação é de sua própria autoria, fruto de reflexões anteriores ao caso. 

Variedades importantes

Porém, outros assuntos merecem certo destaque. No caso da lei do Audiovisual, a revista, desconsiderando os excessos, mostra-se favorável. Um projeto que visa a regularização desse setor e atinge grandes grupos e instituições internacionais deve ser visto sob óptica positiva. 

Cabe, entretanto, ressaltar que o Conselho Federal de Jornalismo e a Lei de Audiovisual não receberam grandes espaços ou matérias específicas. O que o veículo buscou apresentar de forma incisiva foram os problemas inerentes aos projetos e as possíveis soluções que analisadas corretamente podem mirar o alvo certo.

Já o presidente Lula, também é apresentado de forma sensata. Manchetes sem ironia e matérias pautadas pela imparcialidade endossam assuntos relacionados à dívida externa, apoio à base governista, política internacional e eleições 2004. Mas a posição quanto ao Conselho Federal de Jornalismo parece estar encorpando gradativamente.

Recriminar, censurar e repreender, em alguns casos, é necessário. Enaltecer, louvar e consagrar o profissional, quando esse faz por merecer, é o lema da Carta. Assumindo um compromisso com a verdade adquire credibilidade e fidelidade para com o leitor, que já entendeu que o maior objetivo do veículo é defender sua liberdade de consciência. Leia-se, " liberdade de imprensa" no sentido mais ambíguo.
 

                                       


criação: lisandro staut