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Autarquia
publica
Daniela Toledo
Quando se fala no Conselho Federal de Jornalismo as controvérsias logo aparecem. Criar o Conselho seria uma afronta à liberdade de expressão tão priorizada pelos profissionais de jornalismo? Qual será o verdadeiro papel social da imprensa? Talvez a imprensa esteja passando por uma crise de identidade, mas a pergunta que fica é: Será que o Conselho realmente aprimoraria a qualidade de imprensa ou limitaria e aprofundaria ainda mais essa crise existencial?
Pelo ponto de vista do Observatório da Imprensa o que está faltando na imprensa brasileira é localizar a origem de tantas crises sucessivas que impedem o alcance de uma sustentabilidade. "Lateralmente, quando se tenta localizar nossa crise doméstica no contexto da crise mundial da imprensa, acabamos sem referenciais específicos para bem entender nossos problemas e melhor ataca-los", afirma Luciano Martins Costa. ("Empresas versus
jornalistas". Observatório da Imprensa, 10/8).
Alberto Dines, num artigo publicado em 10/8, "Contra o denuncismo, o peleguismo", "a iniciativa é a mais inábil e atarantada já produzida na esfera da imprensa por algum governo desde a redemocratização em 1985". Ainda ironizava dizendo que "parece homenagem ao onipotente Estado Novo com toques de Mussolini, George W. Bush e Hugo Chávez", acrescenta Dines.
As opiniões não param por aí. Ricardo Setti, em artigo de 10/8, "Ameaça que paira no ar", refere-se as declarações de Berzoini sobre a ausência de um órgão fiscalizador. Ele afirma que não há e nem deve haver nenhum. Segundo a Constituição "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (artigo 5º, inciso IX da Constituição Brasileira). Para ele, "o tal CFJ seria uma autarquia pública", e a profissão jornalística estaria unicamente sob poder do Estado.
Ensinamentos
Todo jornalista preza pela liberdade de expressão. Toda faculdade deveria transmitir esses conceitos aos universitários. Mauro Malin destaca a linha tênue existente entre liberdades públicas e direitos civis, como " dois pólos que convivem em conflito constante".
Isso seria um grande avanço para a civilização brasileira. Malin acrescenta que o texto da Constituição de 1988 deve ser interpretado com sabedoria, pois ao referir-se a liberdade de expressão não a trata de forma irrestrita. "Deveriam destacar que, quando se diz serem "invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas" há limitação implícita à liberdade de imprensa".
Para Alberto Dines, o problema do jornalismo não está nos jornalistas, mas "em algumas empresas jornalísticas que desprezam suas responsabilidades e ignoram as contrapartidas sociais pelos privilégios oferecidos na Constituição do País". Seguindo a mesma linha de raciocínio, Luciano Martins Costa completa: "O que não é possível é que as cabeças coroadas da mídia continuem a manipular o noticiário naquilo que lhes interessa, desrespeitando a inteligência do leitor e tentando induzi-lo, na origem, a uma interpretação distorcida do fato".
Cabe aos profissionais de jornalismo zelar pela credibilidade e qualidade da imprensa brasileira, e como já disse certa vez Leonardo Sciascia (1921-1989): "Afirmo que não se chegará nunca a nada de perfeito, de justo e de efetivamente livre em matéria de organização política e social, mas que cumpre viver e lutar como se estivéssemos convencidos de consegui-lo".
A preocupação com interesses pessoais deve acontecer, desde que esses não se irrompam por meio de medidas absolutistas. Governo e imprensa têm o direito de manifestar suas idéias, mas não podem ferir o consenso da nação.

criação: lisandro staut |
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