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Até que a morte os separe

Gilson Nunes

A relação estreita entre jornalismo e publicidade não se restringe apenas aos anos em que os dois cursos passam juntos na faculdade. A ligação entre eles ultrapassa esse período. Os paradigmas do jornalismo passam por uma transformação radical nesse novo milênio. O jornalista e professor de Jornalismo da Universidade Federal de Ponta Grossa, Leandro Marshall diz que a ideologia pós-moderna do mercado liberaliza, relativiza e também flexibiliza as normas e valores do jornalismo.

Como efeito, a linguagem jornalística é contaminada pela lógica e pela retórica da publicidade. O interesse pelos anúncios reforma a roupagem das informações, notícias, colunas, notas, manchetes, pautas, olhos, linhas de apoio, editoriais, suítes e retrancas alterando na essência a retórica do jornalismo. Altera, inclusive, a linha editorial dos veículos e afeta a mentalidade dos produtores da informação.

As matérias publicadas pelo jornal A Folha de S. Paulo, em 9/10 serve como exemplo dessa relação. A Folha trouxe uma página inteira falando do bairro Mooca na capital paulista. O jornal começa traçando um histórico do bairro e o seu desenvolvimento através dos anos. "A modernidade chegou à Mooca, mas ainda permanecem suas encantadoras características". O jornal faz uma descrição do local que causa inveja em quem lê. A maior concentração de transformação no bairro, segundo o jornal, aconteceu na avenida Paes de Barros, o coração da Mooca.

Nesse traçado histórico, a Folha faz menção da tradição italiana no local e logicamente a tradicional festa de San Gennaro. No que se trata da festa, tudo bem, afinal, essa é uma tradição do povo germânico. Mas com respeito ao gancho que se pega, talvez não reflita tanta ingenuidade. "Claro que essa marca (a festa) do bairro é inesquecível e há excelentes representantes como a cantina Don Carlini, a famosa pizzaria São Pedro e a restaurante Di Cunto, entre tantas". Apesar de alguns casos serem conhecidos e denunciados, a maioria das ocorrências da comercialização do espaço jornalístico passa despercebida da opinião pública.

O jornal cria uma gama de vantagens para se morar no bairro. Com respeito à infra-estrutura, menciona que novos investimentos trarão um dia-a-dia prático e fácil, facilitando a vida dos moradores. Entre os benefícios apresentados estão os nomes de três universidades do local: São Judas, Anhembi-Morumbi e Capital. Essas sugestões estão intimamente relacionadas com boas opções, segundo o jornal pra quem mora no local.

"Muito mais vida por metro quadrado", esse é o slogan do projeto, e a Folha diz que o slogan traduz com precisão o conceito do projeto. Numa análise das 25 variações do jornalismo, Leandro Marshall esclarece que "a notícia é usada como objeto de barganha em um contrato comercial com uma empresa anunciante". Só que, ao invés da notícia ser entregue como brinde ao anunciante em um espaço contíguo à publicidade, a informação relativa a empresa, a marca, ao produto ou ao serviço é exposta na mesma edição jornalística em um local distante.

Esse tipo de venda casada procura apenas disfarçar a existência de um abuso do poder empresarial no ramo da comunicação e da informação. De qualquer forma, fica caracterizado o jugo do poder comercial sobre o poder da redação na empresa jornalística. Os dois primeiros anos nas faculdades representam uma pequena parcela do tempo que o jornalismo e a publicidade passarão juntos.

                                                             


criação: lisandro staut