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Viva a diferença

Márcio Tonetti

"Que faz ali a mocinha de minissaia e sorriso de dentes estragados a olhar curiosa o corpo de frei Damião, que repousa no chão de madeira tosca plantado diante do altar principal da centenária Basílica de Nossa Senhora da Penha, no centro do Recife, entre os altares laterais do sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora das Dores, e sob os coloridos afrescos pintados no início do século por Murilo Legrete?(...)"

Engana-se, mesmo o leitor assíduo, que pensa ser este um trecho de Machado de Assis ou Mário de Andrade. Mas para quem lê o mais antigo jornal do País, a linguagem é familiar. Trata-se do primeiro parágrafo retirado de uma matéria do mais importante diário da capital brasileira que noticiava, em 2 de junho de 1997, a morte do "O Último Santo do Nordeste", o frei Damião. 

Se contar "histórias" é tática de grande parte da imprensa para preencher lacunas dos jornais, no principal diário da capital a postura é outra. Conteúdo é prioridade no Correio Braziliense e o caminho encontrado foi adotar um caráter analítico e interpretativo. Os resultados foram gritantes: 156 prêmios de Comunicação - 69 de artes gráficas, 63 de reportagem e 24 de fotografia -, oitavo jornal que mais cresceu de 1994 a 2002 entre os 41 maiores do País. Qualquer elogio ao Correio não é proselitismo político. O jornal mais antigo do Brasil faz por merecer. 

Esta, pelo menos, é a argumentação de boa parte dos leitores. Fazer história era praxe para Hipólito da Costa, o pai da imprensa brasileira. No primeiro texto, da primeira página, da primeira edição do Correio, conforme relembra o Observatório da Imprensa (02/12/2003), o precursor do jornalismo faz uma profissão de fé que até então durava cerca de 200 anos. Sem rodeios, Alberto Dines conclama o historiador ao firmar que embora a própria noção de imprensa ainda estava para ser parida, mesmo no ambiente internacional, Hipólito já destacava piamente a função social daqueles que chamou de "redatores das folhas públicas".

Expor "os fatos do momento, as reflexões sobre o passado e as sólidas conjecturas sobre o futuro", eram os mandamentos do jornalista. Desde muito cedo, a esfera interpretativa dos fatos perpassaram a linha do historiador e beiraram o texto literário segundo já citou num artigo no Canal da Imprensa, o graduando em Jornalismo, Allan Novaes. 

Algo se assemelhou na época da ditadura - diga-se isso em termos de gênero lingüístico. Apesar da rígida censura imposta pelo regime militar, a revista Realidade apresentava um caráter singular que perpassava a ousadia e imprimia no leitor uma visão de mundo, por meio das reportagens embargadas pela interpretação. 

Como diretor de redação, Ricardo Noblat, parafraseou, décadas mais tarde, a receita de Hipólito da Costa, em A Arte De Fazer um Jornal Diário (2003). Para ele, o segredo está em se contar histórias. A explicação, óbvia, considera que "mais valem cinco boas histórias por dia - inéditas, bem apuradas, bem escritas, inteligentemente editadas e capazes de capturar a atenção dos leitores - do que centenas de notícias reunidas às pressas e sem maiores critérios". O lead é inimigo de Noblat, do Correio e também do leitor que fica preso a textos superficiais e quase sempre a leituras supérfluas. 

Mas a imprensa contemporânea faz pensar que o jornalismo tem fórmula. A poção da "pirâmide invertida" desmantela a qualidade e emancipa a mesmice. Que se evite pensar que o lead em si é inútil. A imprensa é que não sabe como utilizá-lo. E é fácil provar. Basta observar o exemplo para perceber como a ousadia faz toda a diferença: 

"O senador Darcy Ribeiro entende tanto de mulher quanto de índio e de povo brasileiro. Não importa se ela é casada ou solteira, burra ou articulada, linda ou mais ou menos - o professor elogia o decote, observa as pernas, chama de meu bem. Por isso, foi possível reunir 47 mulheres de 25 a 73 anos, anteontem à noite, numa casa do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, para um galanteio coletivo ao professor". (Correio Brasiliense, 22/10/95). 

A criatividade não impediu que se colocasse no primeiro parágrafo a informação mais importante. Como despertar a atenção do leitor alimentando-o sempre com o mesmo cardápio? De que adiantará a relevância do fato, se não despertar o gosto e o convencimento à leitura? O Correio Braziliense já provou que é possível explorar o jornalismo sério relatando notícias com clareza e independência. Contudo, Noblat adverte que "não se pode confundir jornalismo com literatura". O que não significa, frisa ele, se desprover de valores estéticos. 

No entanto, a saída de Ricardo Noblat, representou a fuga de várias das virtudes do diário da capital. A linguagem se agarrou a uma crescente padronização do mundo. O lead convencional - O que? Quando? Onde? Como? e Por quê? - começa a preencher atualmente as linhas da objetividade moderna. Mas não cabe dizer que o caráter empreendedor do diário se esvaiu por completo. Até porque, as mudanças devem ser lentas. Noblat relata que a reforma iniciada no Correio em fevereiro de 1994, "ainda não terminou e talvez jamais termine". E ele tem razão. 

Walter Benjamin, teórico judeu integrante do Instituto de Pesquisas em Comunicação de Frankfurt salientava, já em 1930 e 1940, que o caráter da narrativa se extinguiria. O crítico apontava para a existência de relatos jornalísticos em que o narrador ou repórter tenderia para o asceticismo e para a objetividade. Realidade não obstante, hoje; um problema da cultura universal que se contenta com a superficialidade, e prefere os "leads" convencionados pela própria mídia que obstruem a crítica e o conhecimento. 

A maioria dos jornais brasileiros não estimula a leitura, porque não conferem um começo, meio e fim para induzir os leitores para o fim da história. Nesse aspecto, se pode tirar o chapéu para o Correio. E o que se espera de um jornal como esse é que continue preservando a sua "aura". Pois, "se for mero símbolo, tradição e história, serve para discursos pomposos, mas ocos de compromisso com a vida (Correio Braziliense, 19/09/99)".

O Correio Brasiliense construiu uma bela página do jornalismo brasileiro. Nada mais justo do que comemorar essa diferença.