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Prazerosa
degustação
Fernando Silva
"Nove e meia da manhã do Sete de Setembro. À entrada do parque da independência, dezenas de pessoas com numerais pendurados no corpo...". "Segunda-feira, 10 da noite, Vila Fundão, favela na zona sul de São Paulo. Casa térrea, quatro cômodos. No quintal, entulho e três vira-latas" (...). A literatura sempre foi muito inspiradora. Tanto é verdade, que o jornalismo tem tido notável influência dessa área. O jornalismo literário está ganhando espaço dentro de muitos impressos. E com sucesso.
De fato, o resultado de uma boa reportagem é o de "articular harmonicamente os efeitos estéticos", conforme Adelmo Genro Filho comenta em
O Segredo da Pirâmide - Para uma Teoria Marxista do Jornalismo. Com isso, o jornalismo literário tende a se tornar, de certa forma, um gênero muito difícil. "Exige uma superposição do talento literário e de apuradas técnicas de investigação e redação jornalística", segundo Genro Filho.
A exemplo desse "enredo", a revista Carta Capital, fonte dos trechos no primeiro parágrafo, é experiente no assunto. Ao falar sobre economia, política e negócios, o semanário se supera com suas publicações recheadas de matérias poéticas e com toques de romantismo.
Sem perder o foco, o mentor e precursor da revista, Mino Carta, diz que "foi necessário fazer um jornalismo diferente do praticado pelas semanais à disposição do público". A revista também abre espaço para discussões sobre alguns temas apresentados.
Apesar da raridade do jornalismo literário na imprensa brasileira, Carta Capital não economiza espaço expressando um jornalismo mais investigativo e cultural. Humanizando com afinco as reportagens, os repórteres levam o leitor a uma melhor reflexão sobre o que lêem. A princípio, a impressão é a de estar diante de um livro. Parece ser essa a sensação que querem transmitir.
Alegorias literárias
Muito longe de um jornalismo simplesmente objetivo, o semanário alarga seus parâmetros até mesmo nas matérias de simples informação. Por exemplo, uma matéria que fala sobre as expectativas para o comércio no natal: "A imagem do Natal de 2004 deverá ser a de um Papai Noel parrudo, de bochechas rosadas e sorriso de satisfação" (...). Esse é um tipo um jornalismo que faz o leitor viajar juntamente com o repórter. Diferente dos normais.
É muito provável que ao idealizar o trabalho da Carta, Mino sabia que não seria fácil. Isto é, com a "extinção", os jornalistas não viram necessidade em continuar divulgando o gênero. A popularidade é pequena. Sendo assim, "quanto menos o leitor toma conhecimento, conseqüentemente, há menos desejo pelo tema", explica Vilas Boas.
Se Mino sabia ou não disso, não vem ao caso. O importante é que, com um projeto muito bem desenvolvido,
Carta Capital está hoje entre as melhores do País. Com uma filosofia humanista, a técnica literária dos jornalistas, e muita sensibilidade - talvez pelo número elevado de mulheres na redação -, faz com que a revista ganhe invejado espaço entre as grandes mídias como
Veja, IstoÉ e Época. E conquistam também a credibilidade dos leitores que, ao perceber o vigor da revista, acabam migrando para a mesma.
A Carta Capital adotou um bom exemplo a ser seguido. Um jornalismo que está deixando a mesmice de lado e partindo - ou voltando - para o estágio mais elevado da língua portuguesa. Se continuar assim, a comunicação brasileira deixará as matérias "enlatadas" em que, de qualquer forma, o leitor tem que engolir a seco, para ter uma deleitosa e prazerosa degustação.


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