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História para amigos

Dayse Bezerra

Caros amigos. Uma história pode ser contada com muita emoção, ação e realismo sem imagem alguma. O segredo para tal façanha é de poucos, pois essa arte está na elaboração escrita de um fato, recheado de surpresas e humanização, para atrair o leitor de maneira que construa o acontecimento na mente desses apreciadores literários. 

O "contar histórias" para muitos é ofício apenas de historiadores do estilo "era uma vez" de contos de ficção. O campo para obras literárias na imprensa se desenvolveu com a participação crescente de jornalistas que transformam uma notícia factual e cotidiana, no exercício intensivo de práticas jornalísticas utilizando técnicas e estruturas das narrativas de ficção. 

A revista mensal Caros Amigos possui essa característica: o jornalismo literário. Lançada em abril de 1997, o periódico destaca artigos e entrevistas com personalidades importantes do meio econômico, político, religioso, artístico, esportivo, filosófico e de outros campos de atividades. Com opiniões diversas e independentes, o entrevistado se torna o personagem principal da história.

Não se trata simplesmente de uma entrevista formal. Ela é desenvolvida com um bate-papo descontraído, absorvendo informações com detalhes da vida profissional e pessoal do entrevistado. Com uma equipe de oito entrevistadores, o personagem em destaque da edição de outubro/2004, foi o jornalista Ricardo Kotscho, da Secretaria de Comunicação e Divulgação da Presidência da República. Em alguns trechos, Kotscho não esconde o que pensa. Devido ao cargo conta que passa por muitos sufocos para dar conta do recado.

De início, as perguntas foram de cunho pessoal, revelando segredos de sua infância - estratégia para despertar o emocional do entrevistado e do leitor - como esta de Kotscho: "Eu queria, como todo moleque, ser jogador de futebol. Não deu certo. Aí, fiz uma brincadeira que, o cara que não dá certo em nada na vida acaba sendo jornalista. E quando não sabe nem escrever nem fotografar, vira chefe". O que poderia ser uma declaração apenas dos bastidores em uma simples entrevista, tornou-se notícia relevante.
Para completar o editorial da Caros Amigos, que firma seu sexto ano de existência, além das entrevistas, têm reportagens, ensaios fotográficos e a opinião dos leitores. 

Seu perfil de leitores foi comprovado em pesquisa quantitativa, realizada em agosto/2001, que 72% são homens com idade entre 20 e 49 anos, sendo este, um nível de escolaridade com 91% superior completo e 19% pós-graduados. Isto reflete no público maior de classe média, com 49%. Pode significar um bom sinal para o jornalismo literário, que vêm ganhando mais espaço no gosto dos leitores. Um "novo jornalismo" que valoriza não apenas a quantidade de informações, e sim, também a qualidade de como são escritas.

Nas bancas, em toda segunda semana do mês, e no site da própria revista, a Caros Amigos já se tornou carro-chefe da editora Casa Amarela. Contando com um grupo de colaboradores escritores, que fomentam a revista.

A Caros Amigos se preocupa com a edição de cada notícia, desde sua apuração, tipo de linguagem e a escolha das imagens. A maneira como é contada, com detalhes minuciosos, é capaz de fazer com que o leitor incorpore com a história real. Que por meio da mente, leva o leitor a visualizar o cenário dos fatos, identificar cores, lugares, sentir cheiros e até se colocar no lugar do personagem, na matéria jornalística.
 
Um exemplo desse gênero foi a "história contada" pela escritora Ana Miranda: "A fome do lobo". Ela relata a vida de um jovem que foi envolvido pelo mundo do crime, com o diferencial em trechos da matéria, "o rapaz foi recuperado para viver na sociedade sem incomodar ninguém, tornou-se uma pessoa útil". Com ênfase no personagem principal, a mãe do rapaz, que aprendeu a conhecer a fome do lobo, o seu filho. O que pode parecer uma fábula é uma história real contada de maneira diferente. Literária.

Vale aqui fazer uma metáfora da revista. Simbolizá-la como uma carta que está sempre contado as novidades mais recentes e detalhadas para os prezados amigos. Como um conto, mas não de fadas, e sim de fatos bem reais.