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Entrelinhas
literárias
Dayse Bezerra
Quando se fala em jornalismo literário, lembramos das origens do jornalismo brasileiro. Características marcantes dos impressos que noticiaram os feitos heróicos do reinado até a independência do País. Para os primórdios escritores da época, o padrão de linguagem nos textos jornalísticos era o estilo literário. Avançando os anos, chegamos à imprensa atual. Com tantas informações e imagens informativas, os jornais perderam sua origem literária. É claro que não por completo.
Os resquícios do passado sempre vão estar presentes. O Jornal da
Tarde, de tradição regional paulistana, possui todo o seu jornalismo sério, mas com pitadas literárias em textos de opiniões, notícias políticas de eleições, outras de cunho social e de entretenimento.
O idealismo jornalístico é informar o que é de interesse a sociedade. Mas a cada dia, histórias com personagens comuns se tornam notícias relevantes no
JT. Relatada com muita emoção e detalhes profundos sobre o fato o texto fica rico e parece competir com a imagem, ganhando mais atratividade que a própria fotografia. Mesmo com uma linguagem jornalística, não foge do estilo literário.
A presença literária no JT não é característica principal do veículo. Mas notícias como a de Marici Capitelli, 30/10, sobre os preparativos para o Natal nos shoppings, em que descreve: "Eles quebram, montam, pintam, serram, testam a fiação e fazem o que for preciso. É um verdadeiro canteiro de obras que constrói sonhos". Com descrição logo no primeiro parágrafo a jornalista acrescenta seus juízos pessoais, tornando o texto mais belo e criativo.
Nos períodos eleitorais, a concentração dos candidatos é noticiada de perto pelo
JT. Na reportagem de 01/11, no Caderno A, "Serra faz replay do 1° turno", Silvio Bressan acompanhou o dia de eleição de prefeito José Serra. Com a vitória no 1° turno, a comemoração se repetiu no 2° turno. Na matéria, Bressan faz uma comparação: "Tal como no filme
Feitiço do Tempo, em que o ator Bill Murray é obrigado a viver eternamente o mesmo dia, os tucanos acordaram no domingo com essa obsessão". Uma informação sem relevância, que complementou o pensamento literário do repórter.
Quando o JT publicou o artigo "Estigmas do doente-delinquente", de José Procópio Dias, no caderno Opinião, começou contando a história de Eduardo, um doente mental que foi preso após praticar sem intenção uma tentativa de homicídio.
De forma criativa, para chamar atenção dos leitores, logo de início, descreve as alucinações e desvios mentais do personagem da história. Criou toda uma cena vivida por Eduardo com emotividade, para que o leitor se colocasse no lugar da vítima.
Nem todas as matérias têm a pitada literária. Muito mais presente no lead das notícias. Seria este um novo estilo pós-modernista de
lead, rompendo os padrões com as perguntas básicas que todos já conhecem? Um "novo e velho" modelo de textos jornalísticos, com a justificativa de valorizar a liberdade de expressão, com criatividade e mais apuração minuciosa dos detalhes?
Analisando o Jornal da Tarde é informativo, pois assegura a informação ao povo. Não fica de fora do jornalismo opinativo, que procura influenciar o homem. E sem mais detalhes, está acompanhando, nas entrelinhas, de jornalismo literário, que faz dos dois um pouco: "informar com criatividade, para influenciar a sociedade". Sem mais detalhes.

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