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Suprimentos
infantis
Alex Gonsalves
Muitos jornais impressos brasileiros oferecem suplementos infantis. São cadernos especiais e semanais que vão anexados aos jornais no sábado ou no domingo, a critério das redações. No jornal
Folha de S. Paulo, o suplemento chama-se Folhinha e no Estado de S.
Paulo, Estadinho. Pouquíssima criatividade em relação à concorrência. Ambos saem no sábado - mais uma coincidência.
Na Folhinha, a grande ênfase está na cultura. Pequenas resenhas sobre livros e filmes e a agenda apresentando os eventos do fim de semana e da semana posterior são constantes. Além disso, há também um espaço reservado para publicar cartas dos leitores mirins. Existem indicações de sites, geralmente só relacionados ao entretenimento, como jogos, brincadeiras, etc. Geralmente uma página aparece com histórias em quadrinhos e outra com brincadeiras, jogos. Sessões voltadas para educação praticamente inexistem.
No Estadinho, por sua vez, os materiais publicados se assemelham em muitos aspectos. A ênfase maior também é na cultura. Cada uma das brincadeiras, jogos e quadrinhos, assim como na
Folhinha, também ocupam uma página. A agenda cultural sempre está presente.
Alguns diferenciais merecem destaque. O Estadinho sempre apresenta dicas sobre saúde. Temas do tipo como respirar melhor, como se livrar das dores, a quantidade de calorias nos alimentos, enfim. A sessão chamada "Olha Só" sempre traz algo a ensinar sobre a língua portuguesa. As matérias de capa geralmente trazem assuntos sociais de interesse às crianças e que têm certa relevância social.
Em ambos os cadernos, Folhinha e Estadinho, não se percebe a preocupação em trabalhar a crítica ou reflexão na criança. As resenhas de cinema, teatro e de livros se limitam à mera descrição. Não há análise, questionamentos, alertas sobre os aspectos negativos. É como se as crianças fossem acríticas. E elas não o são. Basta já ter conversado com qualquer uma para perceber o senso crítico, o questionamento aflorado. Por que, então, manter tal situação?
Escolaridade em falta
Contudo, nota-se que os suplementos praticamente não tocam em assuntos acadêmicos. Tudo bem que no fim-de-semana as crianças querem - e devem - relaxar. No entanto, tratar de assuntos da vivência delas na escola não significa que o descanso será prejudicado. As crianças brincam mesmo nos dias letivos e nos finais de semana intensificam as brincadeiras.
Os temas voltados para a vida escolar nestes suplementos poderiam ser abordados de forma mais intensa nos dias letivos e de maneira mais light
aos finais de semana. Para que a escola deixe de ser vista como obrigação e torne-se prazerosa à criança, primeiramente a visão do adulto sobre o assunto tem que mudar.
Educação não é só na escola. Por que não abordar nestes suplementos, por exemplo, atitudes de destaque dos alunos em escolas, incentivando os leitores a fazerem algo semelhante nas suas? Promover e divulgar as iniciativas de alunos em prol de alguma causa pode gerar uma repercussão muito positiva e acima de tudo significativa no espectro de abrangência destes suplementos.
Talvez seja o momento dos editores repensarem o papel destes meios de comunicação em relação ao seu público-alvo, os pensantes mirins. A
Folhinha, por exemplo, já está há quarenta anos no mercado e é ainda inexpressiva, sem mexer com a sociedade. Talvez no ato de sua concepção, estes suplementos surgiram por acaso, ou na intenção de entreter o filho enquanto o pai lê. Mas já é hora de mudar este quadro.
Suplemento virtual
A situação se modifica um pouco nos sites dos veículos. No caso do Estadinho, na sessão de suplementos do estadão, o conteúdo é praticamente o mesmo do impresso, mas há um link com o Escaleno (um cachorro que tem o corpo com uma forma triangular), uma espécie de suplemento online dentro do Estadinho, que merece atenção especial. Ali, há uma série de opções divertidas, chamativas, mas, acima de tudo, educativas.
Com sons divertidos, ícones e ilustrações agradáveis e bem diagramadas, o site trata de assuntos divididos nos seguintes tópicos: "Peixonauta", em que se explora o mundo com poesias animadas; "Rita", uma série de atividades realizadas pelo personagem que educam o navegante com brincadeiras; e "Aurelinho", um dicionário interativo com palavras cantadas, além de outros tópicos. Este é um exemplo de possibilidade pouco explorada pelos meios de comunicação.
Talvez falte o pensar nos bancos acadêmicos sobre o jornalismo especializado para o público infantil. Não como substituto da educação, mas como uma força ao lado da mesma. Se o jornalismo se propõe a informar para formar, não há público que mereça mais atenção que o infantil. É claro que não de forma a manipular, mas incentivando o pensar. De manipuladores a sociedade está cheia, mas de estimuladores do pensar, a escassez é inversamente proporcional.


criação: lisandro staut |
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