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Império ideológico do Tio Sam

Fabiana Amaral


O título desse artigo pode facilmente ser o resumo das características do império de entretenimento em quadrinhos que é a editora Marvel Comics. Típica nova-iorquina, essa empresa que já atendeu pelo nome Timely Comics viu as receitas aumentarem drasticamente a partir da década de 1960. Seus super-heróis saíram do fundo do imaginário da trinca fantástica composta por Stan Lee, Steve Ditko e Jack Kirby.

Claro que uma boa briga e uma apimentada concorrência, ainda mais em tempos de Guerra Fria, deram um empurrãozinho nessa façanha. É que a DC Comics, mantenedora dos legendários Super-Homem e Batman, impunha seus superpoderes na dosagem advinda de Krypton.

No entanto, a Marvel dispõe de cartas na caracterização de seus personagens - na maioria quarentões - como uma dose de pimenta numa comida insossa. O universo dos super-heróis tem a velha característica de homens infalíveis (quando homens) e absolutamente fortes e insensíveis a tudo que não seja injustiça. Mesmo o morcego de Gothan City, que é humano, parece o mais inerte dos robôs quando o assunto é sentimento.

Os heróis da Marvel inauguram um estilo único. Esse staf de superpoderosos tem confusões e características bem humanas. Verde como ele só, o incrível Hulk é atormentado com confusões e distúrbios psicológicos a la Freud. Wolverine, dos mais famosos e rentáveis da turminha X-Men, é outro que nem o pai da psicanálise entende, de tanta agressividade e rabugentisse, apesar da empatia que consegue com o público. O mais famoso e ícone desse universo Marvel é Peter Parker, que depois de uma picada de aranha encarna em sede de justiça - hora radioativa, hora geneticamente transformada - o Homem Aranha.

Esse super-herói, que por acaso é jornalista, com espinha e auto-estima desequilibrada, aliás, é - além de muito lucrativo na indústria cinematográfica - um típico exemplo da proximidade com o real. Nele começa uma fase em que a Marvel lança um herói que vive numa cidade que se pode visitar, a animadíssima Nova York. E claro que os atentados de 11 de setembro não ficariam de fora do roteiro das novas revistas. E nem seus vilões.

Retrato estadunidense

Também é curioso observar como os trâmites políticos e o cotidiano da vida pública americana permeiam os quadrinhos da Marvel. Como em nenhum outro, o presidente estadunidense e seus escudeiros marcam presença nos fantásticos episódios. Nem sempre louvável, diga-se de passagem,

É o típico retrato da história norte-americana. Durante os anos da Marvel, podem ser encontrados roteiros e até desvios no comportamento dos personagens conforme a maré política e social. Tem-se guerra, então os heróis se alistam. Se existe concorrência com outro país, não demora para que seus líderes sejam caricaturados como vilões malvados. Se uma nova moda é lançada... bem, aí prosseguem.

A Marvel soube aproveitar suas fases lucrativas e seus jovens talentos. Quando a maré parecia não estar dando para peixe, descobriu um novo filão: o cinema. Descobrir, na verdade, já tinha descoberto, mas explorar como vem sendo feito, só agora. E os lucros são maiores e mais fortes que o escudo do Capitão América - outro ícone do delírio "umbigocamericano", nascido na Segunda Guerra Mundial.

A briga entre os heróis da Marvel e da DC Comics pela dominação do mercado de quadrinhos é digna de roteiro, mas salta aos olhos o fato de que, entre o cabedal de heróis criados, poucos e antigos é que reinam absolutos. Os maníacos que me desculpem, mas, apesar dos lucros, é a DC quem entronizou heróis que marcam época e gerações. Super-Homem e Batman são os que vêm à mente quando se fala de super-heróis, apesar da era do cinema.

                                       


criação: lisandro staut