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Amigo da educação

Wendel Lima


Era o ano de 1953. Num contexto de declínio do rádio e de ascensão da TV, surge a revista infantil Nosso Amiguinho. Periódico mensal nanico no nome, mas que mostrou fôlego de gente grande ao longo dos últimos 50 anos. A publicação da Casa Publicadora Brasileira (CPB) foi lançada com o slogan "A revista das crianças do Brasil". Frase profética. Dois anos depois, a revista alcançava a tiragem de 400 mil exemplares por ano, e em 1959 o número saltava para um milhão.

O conteúdo da revista é desenvolvido em cima de personagens ilustrados. Em princípio havia apenas o Noguinho, o garoto modelo. Posteriormente, na década de 70, com a entrada do cartunista Heber Pintos, a publicação ganhou mais personagens como o professor Sabino, Quico, Cazuza, Luíza, o cachorro Azeitona. Mais recentemente, nos anos 90, nascem a Gina e o gato Mindinho.

O trabalho de redação do Nosso Amiguinho teve as participações eventuais de escritores populares da literatura infantil, como Ganymédes José e Regina Siguemoto. Por meio da divulgação e distribuição domiciliar e do empreendedorismo da editora, a revista alcançou os recônditos do País.

Em 50 anos muita coisa mudou. O número de páginas aumentou; o espaço para a publicidade também. Seções foram suprimidas e outras acrescentadas. Mas, após amargar uma queda drástica nas vendas no final dos anos 90, a revista modificou novamente a diagramação e o formato. Como é comum no segmento infantil, a marca Nosso Amiguinho deu vida a outros produtos educativos, dentre eles jogos, bonecos, vídeos e CDs musicais e multimídia.

Peculiaridades

A revista Nosso Amiguinho, como todas as demais do mercado, propõe-se a educar os seus pequenos leitores de uma maneira criativa e divertida. Logo, aborda temas relacionados à cidadania, ecologia, saúde, história, cultura e turismo. Procura desenvolver também nas crianças as habilidades manuais, por meio de atividades com modelagem e dobraduras. A educação musical também tem a sua vez, com partituras simples e curiosidades sobre a música popular brasileira.

Todas as edições trazem uma história da turma, em que o tema é desenvolvido e uma lição moral extraída. Algumas personagens ainda participam individualmente em outras seções educativas, abordando assuntos atuais, como noções de informática, inglês e espanhol.

Nosso Amiguinho conta também com um espaço destinado a histórias bíblicas. Apesar do enfoque do veículo não ser religioso, valores cristãos permeiam toda a sua linha editorial.

Logicamente, num mercado competitivo e cada vez mais segmentado, a revista não é unigênita. Existem outras boas publicações mensais, semanais e eventuais à disposição da criançada. Uma conhecida é a Recreio, da Editora Abril. Com uma linguagem mais lúdica, procura divertir ensinando. Trata de assuntos relacionados à cidadania, ecologia e cultura. Por meio de modelagens e origamis incentiva também à coordenação motora e à sensibilidade artística.

Nosso Amiguinho sai na frente no quesito formação intelectual. Se por um lado, o lema das revistas dos grandes grupos de comunicação é "educação com diversão", pelo outro, o educar parece estar em segundo plano. Enfoca-se entretenimento em detrimento ao ensino. 

Ora, um veículo impresso como uma revista, deveria ter uma função diferencial. Desenvolver no infante a criatividade, o prazer pela leitura e o senso crítico deveria ser prioridade. Porém, isto se torna utópico ao valorizar nas páginas os "heróis" da TV e dos games. Nesse aspecto, Nosso Amiguinho diferencia-se positivamente das demais. Seus heróis são os grandes homens da história; sua diversão é predominantemente educativa.

Orientação aos pais


Que os programas televisivos e os jogos eletrônicos nocivos fazem parte do imaginário infantil, inquestionável; que os veículos que se dizem educativos perpetuem isto, inadmissível. Deveriam ser alternativos e não extensivos. Deveriam auxiliar pais e professores na difícil tarefa de transmitir valores às crianças.

Como nem tudo é perfeito, a Nosso Amiguinho, apesar do seu bom conteúdo, peca em não trazer uma orientação profissional aos pais e professores. Sua abordagem auxilia as crianças na escola e no relacionamento familiar, porém, seu alcance seria maior caso houvesse atividades de cunho interativo entre crianças e educadores. Com tal mudança, a revista poderia entrar nas salas de aula, como um auxílio didático, estreitando ainda mais a relação entre escola, família e lazer.

Mas, talvez a principal pedra de tropeço no caminho da revista, seja a divulgação. A CPB se vale de uma publicidade restrita ao mercado interno. Nosso Amiguinho é conhecido entre o público adventista e, em menor escala, pelo evangélico. A principal divulgação da editora ao grande público se dá pelos seus representantes, que fazem uma abordagem pessoal e geralmente domiciliar. Apesar de alcançar todo o País, o periódico não se encontra nas bancas. Isso lhe confere uma expressividade limitada.

Como em terra de cego, caolho é rei, Nosso Amiguinho se destaca como uma das poucas publicações que concilia educação e recreação. É um bom exemplo de que, apesar das constantes mudanças sociais em que os valores são rechaçados e a sensação sufoca a reflexão, forma e conteúdo podem caminhar de mãos dadas. Precisa-se de amiguinhos da educação.

                                       


criação: lisandro staut