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O
feitiço das letras
Grace Spínola
Seu vocabulário é rico em poderes mágicos, seres estranhos, símbolos e palavras difíceis. Mesmo assim, seus leitores se propõem a devorar aproximadamente 700 páginas de uma só vez. Tal fenômeno atende por Harry Potter, o menino bruxo cuja série de cinco livros já vendeu mais de 192 milhões de cópias.
A autora dos livros, a inglesa J. K. Rowling, trabalha com títulos sugestivos, como
Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara
Secreta. O restante da coleção não fica atrás: Harry Potter e o Prisioneiro de
Azkaban, Harry Potter e o Cálice de Fogo e Harry Potter e a Ordem de Fênix. A estória de Harry é contagiante. Pura magia, no sentido literal da palavra.
Harry Potter é um menino comum, que mora com seus tios porque perdeu os pais em um acidente de carro. Ao completar 11 anos, descobre que seus pais eram bruxos e que seu destino também seria se tornar um bruxo. A partir daí, sai do mundo dos "trouxas" (nome dado aos que não são bruxos) e vai para o mundo da magia.
Há algo de anormal nessa estória, além de animais que falam, vassouras que voam e palavras mágicas? Não. Nas estórias
de Cinderela, Branca de Neve e outros clássicos, feitiçarias sempre estiveram presentes. A diferença é que os personagens que possuem poderes mágicos fazem uso destes
especificamente. Por exemplo, a fada só usa para fazer o bem. A bruxa, somente para o mal. E no filme, Harry utiliza seus poderes tanto para o bem, quanto para o mal.
Mas para muitos, a série é uma verdadeira aberração. Quando Harry Potter e o Cálice de Fogo foi lançado, vários condenaram os livros pela bruxaria e ocultismo envolvidos. O norte-americano Mathew Staver, advogado cristão, abriu um processo contra uma biblioteca pública por incentivar as crianças a lerem os livros de Potter, argumentando que isso era o mesmo que incentivar a bruxaria. Isso, segundo Staver, vai de encontro com o artigo da constituição estadunidense que estabelece que o estado não pode divulgar crenças e religiões.
Harold Bloom, um dos críticos literários mais populares do mundo, causou indignação em 2000 ao publicar no
The Wall Street Journal um ensaio que reprovava os livros do menino bruxo. Em entrevista concedida a
Época (3/2/03), Bloom disse: "Odeio Harry Potter. É bruxaria barata reduzida a aventura. É prejudicial ao leitor."
Mundo ilusório
Mas o que faz crianças desinteressadas pela leitura virarem fãs de livros com mais de 700 páginas? Segundo a professora de Língua Portuguesa, Selma Caldas, em entrevista ao
Canal, as crianças gostam porque são levadas para um mundo irreal. "Um mundo ilusório onde tudo é possível, onde podem fazer tudo que imaginam", afirma Selma.
O biógrafo Thomas A. Shippey, em declaração ao Portal Terra, define a estória de Potter como de boa qualidade e afirma: "Tanta aceitação de Harry Potter mostra que as crianças estão preparadas para ler ou escutar livros muito longos, desde que elas tenham uma história empolgante para ler."
A estudante de publicidade e propaganda Diane Rodor, que já foi leitora assídua da série, declara que, para os jovens, a trama é muito envolvente porque "aguça a curiosidade que o ser humano tem sobre a dimensão espiritual - o oculto". Sobre o protagonista, ela diz que o leitor se identifica com ele. "Ele não é completamente bom, mas seus fins justificam os meios."
O lucro
Embora haja ocultismo e feitiçaria em suas estórias, Harry Potter virou mania e fã-clube.
A Ordem de Fênix - em inglês, lançado em junho, foi o livro de vendagem mais rápida em toda a história, com cerca de oito milhões e quinhentas mil unidades em apenas sete dias.
Segundo a revista Forbes, Harry Potter ficou em terceiro lugar numa lista dos dez personagens de ficção mais rentáveis de 2002. O livro faturou dois bilhões e 900 milhões de dólares no ano, fato que nem a autora dos livros esperava.
Rowling começou a escrever as idéias do bruxinho em guardanapos. Demorou cinco anos para escrever o primeiro livro. Depois de pronto, o material foi recusado por várias editoras, até ser lançado e proliferado com a propaganda boca-a-boca. Para a autora, as histórias fazem sucesso porque são sobre magia, o que atrai qualquer um.
O fenômeno de Harry Potter é visto antes mesmo dos livros chegarem as livrarias. A Rocco, que edita as obras no Brasil, colocou no ar um site onde há uma contagem regressiva para
Harry Potter e a Ordem de Fênix. O último volume tem lançamento marcado para 29 de novembro.
Porém, muitos são aqueles que vão adquirir o exemplar lusitano em outubro, mês previsto para o lançamento em Portugal. E há várias páginas na internet que prometem a reserva do livro. Realmente Harry Potter é um menino encantador!

criação: lisandro staut
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