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Estamos em crise, mas não publiquem

Fabiana Amaral


A imprensa toda está passando por uma espécie de hibernação. É como se estivesse silente em sua agonia, na esperança de que tudo passe logo. Mas as demissões em massa e o declínio dos postos de trabalho para jornalistas berram por si só e nem precisam ser publicados para virar notícia.

Enquanto a quebra acontece nos pequenos jornais; beleza, vá lá! Mas quando a avalanche começa a chegar perto dos grandões, a coisa toma ares de séria. É mais ou menos o que acontece com o Grupo Estado. Não que não seja visto o mesmo problema em empresas grandes como Abril e Globo, mas com o sisudo Estadão, parece mais dramático, mais melancólico.

No Grupo Estado, apesar dos outros veículos como Jornal da Tarde, Rádio Eldorado, Agência Estado e Oesp Mídia, quem dá dinheiro mesmo e sustenta tudo é o conservador O Estado de S. Paulo. E não é para menos. Há mais de cem anos no mercado, passando por todas as grandes transformações brasileiras, é tido como a cara e base do jornalismo moderno - embora tenha estacionado na modernização, convenhamos.

Levando o nome do Estado, desde que era província, o Estadão é a marca de uma empresa familiar de sucesso. Os rumores de brigas e dissensões internas nunca são confirmados ou vão mais além do grande prédio às margens do Rio Tietê. Começando com Julio de Mesquita, que se tornou o único dono do diário em 1912, comprando totalmente o jornal de Rangel Pestana, ele passou de pai para filho e sobrinhos sempre dentro da linha editorial familiar. Esse sempre foi o grande código de conduta interno.

A questão é que a crise atual é muito diferente de todas pelas quais o Estadão passou. Na Revolução de 32, o Estado ficou do lado dos revolucionários, o que provavelmente acarretou a cara virada de Getúlio, que deu vazão a uma crise considerável no jornal dos Mesquita, até o ditador sair de cena.

Depois disto, pode-se visualizar um período bastante interessante, por ocasião da ditadura militar em que o impresso é considerado um baluarte da resistência à farda. O jornal conviveu com censores e fez história publicando poemas Camões e receitas culinárias, dizendo baixinho - ou gritando, conforme a interpretação - que estava sendo reprimido.

Divisor de águas

Passados esses períodos mais conturbados, as crises seguintes não foram muito graves nem causaram grandes estragos. Todavia, a de agora, culminando com a demissão de funcionários e o afastamento gradual da família Mesquita do quartel general está, além de tudo, gerando comentários.

Com a crise financeira, há a necessidade de reestruturação nas empresas, principalmente familiares, para se sustentarem no mercado. Ou se deixa guiar por salva-vidas ou morre afogado. O Grupo Estado preferiu apelar para os salva-vidas mesmo que isso o impedisse de nadar, um pouquinho que seja.

Os salva-vidas são uma empresa que pretende, antes de tudo, colocar as contas em ordem - para isso, demissões são inevitáveis. A despeito dos tons melancólicos dos familiares que estão se distanciando dos cargos mandatários, a profissionalização total da empresa é imprescindível. Isso porque a pretensão, ao que se sabe, é fazer parecer o mais atraente possível para a comercialização com estrangeiros.

Onde essa história vai parar é uma dúvida que poucos se atrevem a sanar. Mas, considerando o que querem fazer parecer os centenários donos do Estadão, essa crise atual dá mostras de ser definitivamente um divisor de águas. A recomendação, quando dão entrevistas, é justamente evitar publicar. Estão em crise, é verdade, mas não publiquem! A imprensa não quer ser notícia.

                  


criação: lisandro staut