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Os
novos rumos do
jornalismo econômico
Rômulo Gomes
Inadimplência, cortes, demissões lucros e perspectivas. O que antes era reportado, passa a ser vivência nos jornais de economia. Pode ser irônico, mas este segmento passa por um baixo índice de crescimento ou, de forma menos enfática, uma crise no mercado. Curioso, não fosse o modo de definir como tais empresas enfrentam a crise.
Os problemas pelos quais os jornais Valor Econômico e Gazeta Mercantil
atravessam não são incomuns. Entretanto, as conseqüências são extremamente importantes no meio jornalístico. Os profissionais nunca estiveram tão receosos quanto à sua permanência no mercado e participação salarial.
Antes de qualquer menção de um ou outro fator que cause essa crise, faz-se necessário traçar um histórico que esboce as origens de tal fato. Neste viés, Nelson Werneck Sodré, em
História da Imprensa no Brasil, destaca a relação do desenvolvimento da imprensa condicionado ao desenvolvimento do País. Dada esta afirmação, sugere-se que, por indução, o Brasil não esteja de acordo com princípios evolutivos para tal.
Neste caso, pode-se fazer uma analogia à situação política e não econômica. As carências administrativas são resultado das nefandas ações e rumos tomados por essas empresas.
Aliado à posição de Sodré, encontra-se o jornalista Ivson Alves, que define o problema do Valor como sendo estrutural pela falta de iniciativas por parte dos acionistas da empresa. Alves menciona que não há causas conjunturais como alta do dólar, encarecimento do papel, ou baixo investimento publicitário no jornal. Segundo ele, a administração cometeu os erros.
O mesmo acontece com a Gazeta Mercantil. Sendo esta mais consolidada que o
Valor, no quesito de constante expansão no mercado e clientes já fidelizados, tem pecado por inadimplência. Os salários do mês de maio, por exemplo, só foram pagos em julho e os de junho ainda continuavam a ser cobrados à época.
Pelo menos, o Valor tentou ser menos ortodoxo no trato com os jornalistas demitidos. Alguns foram transferidos de sua atuação, outros foram demitidos, mas trabalham como
free lancers. Os funcionários da Gazeta, ao contrário tiveram que promover greves para conseguir a remuneração justa.
Vale ressaltar as ações tomadas por Flávio Pestana, diretor-presidente desde a fundação do
Valor, demitido após a crise. Ele tinha hábitos expansivos e que comprometeram o veículo. Foram tomadas medidas que não favoreciam a consolidação do jornal e não poderiam ser controladas, como afirma um consultor de marketing da McCann-Ericksson. As ações usadas por Pestana para contornar o problema cultivavam um novo tipo de público que não seria fidelizado. Distribuições de brindes e outros "anabolizantes" faziam parte de sua administração. Não deu certo.
Saldando a dívida
Desde sua fundação, a Gazeta Mercantil, liderada pelo empresário e ex-deputado federal Herbert Levy, destacou-se no meio econômico. Com a estética que chamasse a atenção e concomitantemente fosse eficiente,
o jornal atraiu rapidamente os leitores.
Mas o constante crescimento não extinguiu, e sim adiou o problema pelo qual passam todos os veículos do ramo. A greve foi causada conseqüente da falta de pagamento. Somente de deveres fiscais a Gazeta tem dívidas que chegam a seis milhões de reais, afirma Eliane Sobral, diretora de redação da revista
Negócios da Comunicação, em artigo no Observatório da Imprensa
(5/8/03).
Eliane foi editora do caderno "Mídia & Marketing" da Gazeta
Mercantil, entre outras funções. Ela define o problema sendo a forma mais apropriada "do sujeito que acaba de comprar um automóvel de luxo e, deliberadamente, joga-o contra o primeiro poste que lhe surge à frente". Analogia indiscutível.
Para tentar resolver o pagamento de mais de 90 milhões de reais, os funcionários criaram a Associação dos Funcionários Prestadores de Serviços e Credores da Gazeta Mercantil, que obteve vitória no tribunal para bloquear as ações do veículo e suas outras marcas até que fossem pagos os saldos correspondentes. Esta associação, da qual Eliane faz parte, foi o meio pelo qual os jornalistas poderiam continuar no veículo e buscar um modo de resolver o problema de forma justa.
Bola pra frente
O
Valor, por sua vez, tomou outras providências. Após a saída de Flávio Pestana, já citado, Nicolino Spina assumiu a diretoria, trazendo ações enérgicas e tratando do problema em várias fases. São de sua responsabilidade a demissão de 50 jornalistas e o remanejamento de outros dentro da própria empresa.
Há rumores que o Grupo Folha e as Organizações Globo, donos do Valor, vendam ou fechem o jornal no próximo ano. Em entrevista ao
Canal, Spina afirmou que "os acionistas decidiram em 2003 que, no sentido de capitalizar a empresa e fazer frente às necessidades de investimentos do
Valor, colocariam à venda 30% das ações do jornal". De acordo com ele, os grupos de comunicação continuariam como majoritários e com as decisões editoriais e o gerenciamento do negócio.
Quando mencionado se havia algum interesse por parte de algum veículo concorrente, ou se a venda das ações era uma medida de interesse afins, Spina reafirma que é ação visa somente a "necessidade de capitalizar a empresa".
Pode-se concluir afirmando que não há conclusão para a crise. As decisões podem ser mudadas e o futuro é incerto. Que o jornalismo passa por problemas é uma verdade; que mercado está se fechando para os jornalistas, idem. Mas há ações positivas.
É louvável a atitude dos administradores do Valor em manter os antigos funcionários como
free lancers e capitalizar a empresa. Da mesma forma, a associação criada pela
Gazeta merece elogios. Ambas minimizam o mal. Talvez a ruína não seja total nos anos que virão.


criação: lisandro staut |
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