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De
olho na sacada romana
Gabriel Ferreira
Para a Igreja, a partir do século XVI, as dificuldades batiam à porta. Surgia a imprensa e a voz de Lutero, fazendo com que a Igreja Católica começasse a sentir uma dificuldade crescente em ser ouvida. Controladora da comunicação desde seu surgimento, não contava com uma interferência tão grande sobre seus fiéis.
Devido à linguagem elitista que a Igreja utilizava para se comunicar, seus fiéis voltavam suas atenções para outros assuntos e para outros comunicadores. Talvez porque o povo gesticulava e a Igreja filosofava. Assim permaneceu o estado da instituição por longos anos. Hoje, porém, os mais recentes planos e manobras do papado, dentro de uma política internacional, focam a recuperação do quarto poder que lhes foi reservado durante o tempo medieval.
Com a perda do controle total sobre seus fiéis e preocupado com a salvação dos infiéis (os ainda não conversos) que procuravam outras religiões, o Vaticano criou o órgão oficial
L'Osservatore Romano. Trata-se de um jornal impresso que transmite valores, anúncios e notícias sobre o estado da Igreja e a voz de Deus para o mundo. A poucos meses da proclamação do Reino da Itália, o primeiro número do
L'Osservatore Romano foi impresso no dia 1.º de julho de 1861.
Com objetivos claros de defender o Estado Pontifício, o impresso carregava acima de tudo uma intenção propagandista da Igreja Católica. Segundo o artigo n.º 2 do regulamento de L'Osservatore criado pelo papa Pio IX, a finalidade do jornal era a de desmascarar e rebater as calúnias que se escalonavam contra Roma e contra o Pontificado Romano.
O jornal durante muito tempo esteve ligado a uma linha editorial rígida, devido aos artigos polêmicos nele publicados, que em 1870 lhe valeram sua suspensão por um mês. O jornal estava na vanguarda, com um espírito independente e empenhado na defesa da Igreja e nos princípios dos direitos humanos. Em seu primeiro decênio de vida, L'Osservatore dedicava muito espaço a argumentos de política internacional e também às temáticas religiosas, eclesiásticas e econômico-sociais, tudo em nome do bem moral da sociedade.
Segundo o histórico "As origens de L'Osservatore Romano", do site do Vaticano, desde cedo o veículo católico qualificou-se como o "espelho leal e bastante completo não só das opiniões e dos desejos da maioria dos católicos romanos, mas também daqueles - pelo menos nas suas formas exteriores e públicas - do próprio Governo do Papa".
Bispos e peões no Brasil
Para que a Igreja Católica atraísse as ovelhas não-praticantes e as perdidas para aumentar o seu rebanho, criou-se no Brasil o jornal
O São Paulo. Em 1905, a Arquidiocese de São Paulo lançou o jornal
A Gazeta do Povo. Em 1930, o veículo arquidiocesano passa a se chamar
O Legionário e em 1956. O São Paulo. Na década de 60 foi censurado pelo regime militar; foi, inclusive, o último jornal a deixar de ser censurado no País, em 1978.
Atualmente, este semanário da Arquidiocese de São Paulo publica em língua portuguesa todas as notícias e pareceres do papado divulgadas pelo
L'Osservatore Romano. Anuncia também todos os acontecimentos relevantes das paróquias brasileiras.
O Bispo de Santo Amaro, dom Fernando Antônio Figueiredo declarou em entrevista ao Universo Online (UOL) em 11/1/2001 que a Igreja não pode ignorar os meios de comunicação são ótimos métodos para a divulgação da mensagem de Deus.
O São Paulo tem o principal objetivo de cativar no Brasil os famintos de comida espiritual, ao divulgar os feitos sociais e culturais que a santa Igreja promove na sociedade brasileira.
Trunfos e ases sobre a mesa
Uma só pergunta emerge, tendo em conta o tamanho do arsenal de meios de comunicação que a Igreja Católica Apostólica Romana detêm. Quem, ou o que a instituição romana quer atingir ao transmitir conselhos vindos de um homem feito de carne e osso e que não possui nenhum poder divino? Deixemos que a nova ordem de catecismo da Igreja responda a esta pergunta: "É dever do Estado defender e promover o bem-estar comum da sociedade civil. O bem comum de toda a família humana requer uma organização da sociedade no nível internacional."
A última jogada no tabuleiro de xadrez do mundo está nas mãos de quem tem o poder. E isto é o que a Igreja Católica tem procurado obter avidamente por meio dos mais de 140 anos da existência do
L'Osservatore Romano e de outros meios de comunicação de massa que a Igreja controla, como é o caso de
O São Paulo.
José Saramago, escritor português, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura e militante do Partido Comunista Português, declarou à agência de notícias Reuters que "na Igreja, não existem escolhas nem eleições. Na Igreja, não existem entrevistas coletivas à imprensa, nem balanços, nem explicações. O controle vem de cima e é absoluto".
A preocupação com a divulgação da palavra de Deus e com a vida espiritual de uma humanidade carente de luz é a principal função da "noiva de Cristo". Resta-nos saber se este controle ao qual Saramago se refere estará realmente vindo dos "altos céus" ou simplesmente de uma sacada a alguns metros do solo.
Infelizmente, poucos ouvem o que está além do céu e muitos se contentam com a observação da sacada romana. Talvez porque seja mais fácil entender a mensagem que vem de um microfone e de uma "imprensa livre", que só controla uma multidão de fiéis.


criação: lisandro staut |
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