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Fidelidade lucrativa

Thiago de Melo

Por um longo tempo, a religião foi o meio mais eficaz de dominação social e a forma pela qual obtinha-se a legitimidade de poder. Após períodos negros, em que se matava em nome de Deus e em seu nome eram cometidas barbaridades, seguidos de um momento histórico no qual Deus é rejeitado e esquecido pela sociedade, a religião volta a estar na moda e se apresenta de uma forma bastante atrativa.

Não diferente, a indústria literária também tem explorado este filão, até algum tempo insignificante. A gama de livros e revistas, que hoje aborda assuntos relacionados à espiritualidade, cristianismo e religião, bem como a divulgação da filosofia de inúmeras seitas e religiões, tem crescido de forma rápida e sido aceita pela população brasileira. A literatura de "auto-ajuda cristã", independente da crise e ao contrário de outros setores de venda, apresenta crescimento contínuo.

Tal fenômeno não é à toa. Em 1950, os católicos eram 93,5% da população, enquanto em 2000 - data do último censo oficial divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - essa porcentagem havia caído para 77,8%. Entretanto, o crescimento dos evangélicos é no mínimo interessante: eles, que não passavam de 9,1% da população em 1991, chegam hoje a 15,4%, ou seja, enquanto em 1991 o Brasil contava com cerca de 13 milhões de protestantes, em 2000 a quantia já ultrapassava 26 milhões, um aumento próximo a 100%.

Este crescimento viabilizou reviravoltas marcantes no mercado literário, como o ocorrido na XI Bienal Internacional do Livro, no Riocentro, zona oeste do Rio de Janeiro. Vinte e uma editoras evangélicas ocuparam uma área de 1.320 m², contra os 715 metros utilizados no último evento em 2001.

Em declaração ao jornal A Notícia (6/10/02), Eduardo Berzin Filho, um dos organizadores da 1.ª Feira Internacional do Consumidor Cristão, estima que o mercado literário religioso movimente aproximadamente 500 milhões de reais por ano. Estão entre os consumidores, umbandistas, espíritas e católicos, mas o número mais significativo é o representado pelos evangélicos.

Auto-ajuda e doutrina

Os livros lançados por editoras como a católica Vozes vêm abordando diversos temas relacionados à comunhão com Deus, reflexões diárias, devoção aos santos e orações. Destacam-se na lista dos mais vendidos da Vozes títulos denominacionais como Novas Mudanças na Missa, do frei Alberto Beckhäuser, e de auto-ajuda, como O Céu Começa em Você, de Anselm Grün. 

A evangélica Mundo Cristão, por sua vez, aposta em títulos voltados ao cotidiano popular e à reflexão estimulante, como Algo Mais, da educadora Wanda de Assunção. A editora investe também em biografias, literatura infanto-juvenil, atualidades, teologia, entre outros. 

Outro destaque é para a também evangélica Editora Vida. Uma de suas coleções, "Debates Teológicos", traz a tona um assunto que para muitos ainda é polêmico: qual a relação entre a lei do Antigo Testamento e a vida cristã? A coleção reúne cinco pontos de vista das mais diversas correntes evangélicas para debater a lei e o Evangelho nos dias atuais. Além de questões éticas e do papel da Lei Mosaica para os cristãos, as obras discutem outros pontos, como a relação entre a lei e a graça, por exemplo.

A Bíblia, porém, continua sendo referência de vendas. Nota-se a preocupação das editoras de mudar o estilo clássico de oferecer apenas o conteúdo de seus livros. Ilustrações, paralelo histórico, comentários ente outros, são formas de chamar a atenção do consumidor.

Não é ruim por si só que o mercado literário religioso cresça vertiginosamente. O problema é quando esse fenômeno ocorre apenas por causa do consumo. Com o perdão da generalização, é visível que, dentro do contexto de sociedade capitalista, a razão não importa, desde que os negócios continuem a crescer. A religião tornou-se símbolo certo de vendas e lucro certo. Antigamente matavam em nome de Deus; hoje matam o próprio Deus.

                    



criação: lisandro staut