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Questão de credibilidade

Neanis Lutzer


Imagine a seguinte cena: você abre uma revista ou jornal e não vê nenhuma figura. Nenhuma imagem. Nenhum gráfico ou desenho. Somente textos. Você acharia estranho, claro. Então imagina que seria uma edição especial e que, ao final, os autores desta inovação explicariam o ocorrido. Mas isso não acontece. 

Você fica intrigado e espera a próxima edição. No entanto, todas as seguintes revistas ou jornais aparecem da mesma maneira. Você continuaria comprando tal periódico? Teria vontade de ler sobre um assunto sem imagens?

Não se preocupe, a imprensa não chegará a este ponto. O que acontece é o contrário, os periódicos estão virando quase que revistas em quadrinhos. Muitas imagens e alguns textos para explicação. Mas o engraçado é que alguns impressos não precisam de fotos ou imagens para atrair a atenção do público. Tudo o que precisam é de conteúdo e confiança. 

É o que acontece, por exemplo, com o jornal Gazeta Mercantil, lido por pessoas que precisam tomar decisões de importância no rumo da economia. É símbolo de credibilidade no mercado, apesar da crise financeira.

Este jornal acompanha as tendências mundiais e se tornou referência obrigatória para o mundo dos negócios. Por ser o maior jornal de negócios da América Latina, mais de 420 mil pessoas o lêem todos os dias. Além disso, é impresso em diversas regiões do Brasil e também em Miami e Portugal.

A Gazeta não perdeu a credibilidade por não conter imagens como outras revistas. Alguns gráficos e poucos desenhos talvez, mas não precisa chamar a atenção por este caminho. Quem o lê, não necessita disso para ser atraído. 

Outro veículo que chama a atenção por não conter figuras é o diário Indústria & Comércio, de Curitiba. É um jornal que contém seções de Política, Economia, Finanças, agrícola, ciência, sociedade e cultura. Fundado em 2 de setembro de 1976, por Odone Fortes Martins, também permanece com sua confiança inabalada.

Um pouco do Le Monde

A preferência que a sociedade tem para muitas imagens e fotos está sendo suprida por quase todos os periódicos. Tanto é que os jornais, que antes eram somente preto e branco acabaram por se tornar coloridos, tamanha sede pela cor que o público tem.

O jornal francês Le Monde também merece ser mencionado. Apesar da crise que enfrentou - que, aliás, todos os jornais enfrentaram pelos problemas econômicos da imprensa mundial - ele continua em ascensão.

Em 2000, sua circulação subiu de 330 mil para 395 mil. Depois dos atentados de 11 de setembro, ganhou mais dez mil leitores devido ao seu padrão de equilíbrio em momentos de crises.

O motivo de tanta repercussão e credibilidade no mercado é sua aposta pela confiabilidade. Este jornal nunca escondeu suas crises e preocupações. O presidente do jornal, Jean-Marie Colombani, precisou tomar algumas providências para superar este tempo. Ele promoveu uma reforma que deixou o jornal "mais completo, claro e acessível", pois sua linguagem e diagramação eram mais preferidas por homens e pessoas mais idosas.

Com as mudanças, o resultado não será "aristocrático nem vulgar", diz Colombani, mas irá se adaptar à época. Agora, 42% de seus leitores são mulheres e a terça parte tem menos de 35 anos.

Fundado em 1944, o Le Monde não necessitou de imagens, mas de conteúdo. Em uma edição, das 32 páginas, 24 delas não continham fotos. Isso se torna um desafio, pois há uma séria dificuldade do leitor em acompanhar atualmente qualquer texto sem imagem.

O diário tem ótima qualidade jornalística. Com as mudanças, passou a usar mais fotos, mas "em nenhum caso serão editadas como meras ilustrações, mas apenas quando contiverem uma informação, como é o próprio de um diário de qualidade", diz Edwy Plenel, direto de redação.

Exemplos temos poucos, mas o suficiente para descrever um mundo sedento por conteúdo, mas atraído pela mediocridade.

                                       


criação: lisandro staut