|
|
|
editorial |
ombudsman | debate
| imprensa
mídia |
cultura | perfil |
nostalgia | opinião
em
tempo | olho vivo | leitor
| e-mail | expediente
anteriores
| próximas edições |
inicial
Sexo
- Ferramenta de mercado
Alex Gonsalves
É impressionante notar como o sexo é usado como instrumento para vendas e até mesmo de notícias. As redações, cada vez mais permeadas pelo capitalismo do sistema do qual fazem parte, deixam de se preocupar com a autenticidade da notícia, fidelidade dos fatos e construção coerente de seus textos para priorizar as metas de venda a fim de obter lucro. Essa é quase sua finalidade de existência numa remodelagem contextual capitalista.
Diante disso, os instrumentos até então utilizados com força pelas agências de publicidade, passam a ser utilizados também para diagramar as matérias das revistas. A revista
Veja, por exemplo, dentro do período de janeiro a julho de 2003 trouxe pelo menos três capas evidenciando o sexo e/ou a sensualidade. Em 5/3, "Limites do Corpo", publicou uma capa representando uma matéria que fala sobre atividades físicas, mostra o corpo de uma mulher malhando. Na capa de 25/6, a matéria foi sobre os gays. Em 23/7, com o título "Sexo", a capa aparece com um homem musculoso, trajado de Tarzan, segurando aquela que seria sua Jane.
No ano passado, em 28/08/2002, no artigo "Em Busca do Desejo", a foto do corpo nu de uma mulher aparece na capa, sendo tampada apenas sua região púbica por uma maçã. Ponho "dona" entre aspas porque sabe-se lá, diante de tais circunstâncias quem é realmente dono de um corpo que se vende.
Exemplo negativo
As outras revistas semanais brasileiras, apesar de não terem evidenciado em suas capas, dentro deste mesmo período, matérias ou insinuações referentes ao sexo, seguem um padrão inaugurado pela
Veja. As sessões que apresentam tópicos da semana, ou frases de celebridades, sempre contêm pelo menos uma foto de mulher se insinuando sexualmente, seminua, ou algo do gênero.
"A Semana" ou "Frases" são as sessões da revista IstoÉ, que sempre dedicam tal espaço para a sensualidade feminina nas suas formas mais provocantes.
IstoÉ, também no primeiro semestre, trouxe em suas capas a evidência de tal tendência. Na edição de 22/1, a matéria "O Brasil Está Na Moda" traz Luma de Oliveira com um
biquíni verde-amarelo.
Por que, em sessões que deveriam evidenciar frases, pensamentos, assuntos relevantes da semana, têm que apresentar mulheres em situação de sensualidade?
Culto às imagens
Comece percebendo que estas sessões estão sempre entre as primeiras páginas, por várias vezes dividindo espaço com publicidades infindas, onde várias enfatizam a beleza feminina.
Isso denuncia uma tendência ao culto às imagens, tendência a mercadologização do corpo e do sexo. Para a mulher ser alguém, talvez uma "celebridade", precisa fazer qualquer coisa para chamar atenção dos influentes, para ter destaque. Se isso inclui exposição do corpo, o preço é pago e recebido.
Não é necessário usar imagens que explorem o sexo para vender mais. Aliás, vender nem deveria ser o foco de revistas que se dizem jornalísticas. Prova de que não é necessário, e ao mesmo tempo de tão intensa exploração sexual na mídia, são as recentes remodelagens dos comerciais de TV.
Enquanto outrora as agências concorriam para ver quem conseguia associar sua
cerveja à mulher mais "gostosa", com menos roupa, nem que não tivesse cérebro, agora, depois de tão intensa saturação, resolvem apostar em outras estratégias. Pergunto: continuam vendendo? É claro que sim.
Se é dito por aí que o brasileiro é tão criativo, por que suas revistas e mídias, por vezes, parecem ser tão copiáveis? Deixo esta questão para o leitor refletir. As revistas, categorizadas como de ciências, por exemplo,
Superinteressante e Galileu, apresentam constantemente assuntos relacionados ao sexo. No entanto, sem baixar o nível, sem tratar do assunto com leviandade, sem explorar imagens fortes ou cenas picantes. Não mostram cenas de sexo, quando muito um desenho, um perfil, uma sombra. Mas o assunto é pertinente.
Conceitos errados
Já as revistas de fofoca carregam nas imagens sensuais, como se para esconder a precariedade de suas outras matérias. Geralmente mostram os jovens num estereótipo de que fazem muito sexo para serem felizes. Quanto mais sexo, mais feliz. Isso é verdade? Só se for em alguma pesquisa ainda não revelada, nem mesmo por eles.
O que dizer das revistas masculinas como Vip, Sexy, Playboy?
Periódicos que apresentam o "nu artístico" ou formas sofisticadas de comercializar a imagem do corpo feminino como se fosse um objeto de consumo. Assim como o sonho de um supercarro está associado à idéia de ser reconhecido socialmente, está a idéia de "possuir" uma mulher dessas para fortalecer tal status.
O homem romântico é substituído pelo "garanhão". A mulher pura é substituída pela "ousada". E a valorização de ambos? Não é preciso nenhuma pesquisa para perceber que quanto mais se enfatiza o sexo, mais se bombardeia as relações afetivas. Antes, pouca ênfase no sexo, mais durabilidade e estabilidade nas relações. Hoje, mais ênfase no sexo, mais intensamente minada as relações. Deveria haver mais debates sobre este assunto no meio jornalístico. O culto ao corpo está deixando de ser notícia para fazer parte da composição da notícia.


criação: lisandro staut |
|