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Retas e buracos da imprensa

Gabriel Ferreira

Ao longo de seus quase 60 anos de existência, a Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero tem-se destacado entre as faculdades do País, defendendo um curso que forme jornalistas acostumados com a prática da profissão. Para tal, a faculdade disponibilizou para seus alunos dois jornais-laboratório, veículos criados para aplicar o que aprendem nas salas de aula. 

Os impressos Esquinas de S.P. e A Imprensa, com públicos-alvo um pouco diferentes, integram a prática jornalística à teoria (
entediante para alguns), obtendo já alguns prêmios e reconhecimentos de alto nível.

Desde seu lançamento, no segundo semestre de 1996, temas polêmicos e grandes reportagens são estampados pelo Esquinas de S.P. O jornal tem a intenção de estimular e incentivar os estudantes à reflexão sobre a situação da capital paulista, do País, da sociedade e da mídia. Grandes nomes já dirigiram o jornal-laboratório, como Aloysio Biondi e José Arbex Jr. O Esquinas alcançou em 2000 o Prêmio Líbero Badaró na categoria "Jornalismo Universitário".

A Imprensa, por sua vez, visa alcançar o corpo docente e estudantil da faculdade, proporcionando a seus leitores um texto jornalístico descontraído e gostoso de ler. É o jornal-laboratório mais antigo do Brasil, em funcionamento desde 1949. O veículo varia entre a linguagem de jornal diário e a de revista semanal, a fim de que os alunos se acostumem a vários estilos.

Ambos os jornais-laboratório se preocupam com o progresso de seus alunos. Os professores responsáveis pelos veículos sabem o quanto seus pupilos precisam ter hoje a prática real do seu amanhã. Um jornalista não é formado quando é graduado, quando recebe um diploma timbrado, mas sim quando exerce a sua futura profissão durante a faculdade.

(In)suficiência ilimitada

Apesar da faculdade ter formado jornalistas consagrados, hoje ela sofre algumas alterações internas. Desde o final de 2002 a coordenação do curso passou para outras mãos. Tudo porque Marco Antônio Araújo, ex-coordenador de Jornalismo, foi demitido durante as férias, acusado de liderar um movimento contra o aumento de vagas nas classes. Motivo mais cômico que este era impossível para quem tinha três mandatos e sete de coordenação de curso em seu currículo.

Uma mancha se alastra sobre o nome da faculdade, cujo Guia Abril do Estudante conceituou como sendo "cinco estrelas". Erasmo de Freitas Nuzzi, diretor da faculdade, exerce poder ditatorial em suas solitárias decisões. Professores, funcionários e alunos não medem esforços para tirar Nuzzi e Wellington Andrade, atual coordenador de Jornalismo, dos cargos que tão ineficazmente ocupam.

A situação se agravou a tal ponto que, em 4 de agosto deste ano, os professores da instituição declararam greve. Os alunos, representados pelo Centro Acadêmico Vladimir Herzog, apoiaram o movimento. A greve só acabou dez dias depois, conciliada pelo juiz João Carlos de Araújo, da Justiça do Trabalho.

Enquanto o diploma de Jornalismo é questionado, diplomados eficientes são despedidos e isto os alunos da Cásper Líbero não compreendem. Enfim, quem sai perdendo são os estudantes que vão "crescendo" num seio familiar onde seus pais (a direção) dizem uma coisa pela frente e, na hora de agir, fazem a sua própria vontade. Assim aconteceu na reunião da Coordenadoria de Jornalismo no final de junho de 2002, quando Nuzzi elevou Araújo aos céus em elogios, e o enterrou tempos depois, demitindo-o.

Sem dúvida, o curso que valoriza a prática acima da teoria e que sempre apoiou seus alunos a praticarem a profissão amada, deixa algo a desejar. Entre a coerência e a realidade existem uns bons quilômetros de distância na Cásper. Em nossos dias, um profissional sem diploma é como um pedinte na esquina sem uma lata na mão.

Deve-se pensar sobre o que se sucede em algumas faculdades conceituadas com nível cinco estrelas, como foi a Cásper Líbero pelo Guia Abril do Estudante. A direção da Cásper, esta sim está longe de receber alguma estrela, pelo menos até voltar a pousar no chão do mundo real e aceitar eticamente a coerência verbal que lhes falta em seu espírito educacional.

Quanto aos jornais-laboratório, nos quais seus alunos se dedicam, estes sim mereceriam mais do que cinco estrelas. Com um alto nível qualitativo de informação e providenciando uma boa e estruturada formação de opinião pública, os impressos Esquinas de S.P. e A Imprensa não devem nada a ninguém em termos jornalísticos. A direção? Esta deixa, e não é pouco.

Nada que uma nova estruturação na grade do corpo diretivo não resolveria. Algumas demissões corretas ali e palavras sinceras acolá deverão ser feitas em curto prazo. Caso contrário, de cinco estrelas a faculdade cairá para um número ímpar mais baixo, e pelas esquinas veremos coordenadores e diretores pedindo esmolas de retidão e, por certo, terão que ter bacias ao invés de latas para coletarem o que lhes falta. Veremos os estudantes atuais nas retas da rodovia jornalística. Pelas esquinas da imprensa eles já passaram sem latas e com cinco estrelas no ombro.

                  


criação: lisandro staut