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Estado crítico é questão de opinião

Thiago de Melo

Prestígio, confiabilidade e fidelidade são adjetivos que um jornal preocupado com sua imagem e credibilidade procura obter dos leitores. Estes, no caso do Brasil, ainda não descobriram a importância de estar bem-informado e possuir uma opinião definida sobre assuntos de importância pessoal e nacional.

Exemplo de jornal que se destaca tanto pela qualidade de suas matérias, quanto por registrar momentos importantes do País é O Estado de S. Paulo. Centenário, este veículo presenciou a ascensão e a queda de vários presidentes brasileiros. Como não podia deixar de ser, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, sua eleição e, enfim, seu primeiro ano de governo, não passaram despercebido aos "olhos" críticos do Estadão, que, como todo meio de comunicação, se posiciona de acordo com a situação e - por que não? -, de acordo com seus interesses. 

O governo do PT, principalmente a pessoa do presidente Lula, foi alvo de um bombardeio de argumentos e críticas por parte da redação do Estadão. Embora na edição especial de 28/10/02, intitulada "Lula presidente", o jornal traga um conteúdo bastante rico no que diz respeito à pessoa política de Lula e à formação e processo de transformação do PT desde sua fundação até os dias atuais.

Esta conversão foi enfatizada pelo Estadão. Uma metamorfose que fez com que o partido passasse de hostil a moderado. Segundo entrevista que o jornal realizou com o cientista político Leôncio Martins Rodrigues, esse processo de transformação ocorre com todos os partidos. Mais diretamente declara: "O PT maduro chega ao poder bastante descaracterizado, quando comparado ao PT adolescente."

Ao que parece, as palavras brandas e o conteúdo descrevendo a trajetória do prisioneiro do Dops à Presidência da República apenas disfarçam um longo caminho espinhoso e verbalmente traiçoeiro o qual o presidente e os seus aliados teriam que passar.

Pimentas negativas

Curioso é o fato de que após a posse de Lula as manchetes do Estadão começaram a apresentar-se apimentadas e bastante negativas. As matérias redigidas relacionadas ao governo apresentam termos como: "o governo Lula nomeou apenas...", "mudanças não devem ser feitas...", "Luiz Inácio Lula da Silva decola hoje para a sua 22.ª aventura diplomática no exterior".

É interessante detectar que dificilmente um título é produzido numa perspectiva positiva da situação. "O PT não aparelhou o Estado"; "Governistas do PT reclamam de inércia"; "Cobranças e más notícias azedam o discurso de Lula" são algumas das dezenas de manchetes que demonstram a insatisfação e a oposição ao partido do presidente.

Luiz Inácio, suas palavras, seus gestos, caretas e ações têm sido o foco central das produções do Estadão, quando relacionadas ao governo petista. Pode-se dizer que a essência das matérias não destaca os discursos de melhorias para o País, mas os erros e gafes cometidos pelo presidente.

Em uma matéria divulgada em 4/12, com o título "Brinde de Lula constrange presidente sírio", o jornalista comenta as várias gafes que o presidente vem cometendo ao longo de seus discursos. Entre elas está o brinde oferecido ao presidente sírio. A questão é que as leis muçulmanas proíbem a ingestão de álcool. 

Outra gafe propagada pelo Estadão é a piada feita sem sucesso à platéia de atletas paraolímpicos em Brasília. Lula comentou que estava com dores nos pés, mas que o proibiram até de mancar.

Destaque também para o infeliz comentário que nada faz do que expressar a idéia de Luiz Inácio em relação à África: "Nem parece que estamos em um país africano", admirado pela cidade estar extremamente limpa. Ou ainda "há males que vem para bem", sobre o acidente na base de Alcântara, mas referindo ao prosseguimento das pesquisas e não às pessoas vitimadas. 

Está claro que estes argumentos são resultado de improvisos mal pensados e que com certeza vem acarretar uma visão não tão positiva da imagem de Lula - na verdade, ótimas oportunidades de se manter calado. No entanto, serão estas questões de tão grande importância para que um jornal tradicional como o Estadão dar tanta ênfase?

No mundo da informação nem tudo é o que parece ser. É preciso consciência e análise para que tudo seja filtrado e fique retido apenas o que é correto. Cada meio de comunicação faz seu mundo, de acordo com sua ideologia e interesses.

Analisar, comparar e refletir sobre as informações pode ser o meio mais eficaz para enxergar o mundo real.

                  


criação: lisandro staut