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Elite popular

Liliane Silveira


É comum ver na imprensa, matérias que tratam da vida dos outros. Principalmente de artistas que estão sendo o foco das atenções. Hoje em dia são poucas as pessoas que dedicam tempo à leitura. E o que as pessoas lêem atualmente não favorece e não possibilita um aproveitamento muito útil. Nesta situação podemos figurar duas iniciativas bem opostas entre si. Dois suplementos semanais do mesmo jornal, Folha Ilustrada e Mais!, trazem assuntos bem diferentes, com a mesma intenção, divulgar cultura. 

A Folha de S. Paulo publica desde 10/12/58 o suplemento Folha Ilustrada. Trazendo assuntos de teatro, cinema, internet, televisão e livros. Seu foco é voltado para vida dos artistas. O próprio nome do suplemento traz algo que sugere uma leitura superficial, o complemento Ilustrada, já faz lembrar de espetáculos e não de reflexão. De fato, é uma leitura descontraída e bem informal, formada de gírias e expressões comuns aos jovens.

Também aos domingos circula o caderno Mais!, informando assuntos de literatura, sociologia, filosofia e artes. Feito para um público mais elitizado e maduro, usa uma linguagem culta e formal. Seu tamanho é menor que os demais. Afinal de contas, seu público também é menor que o da Folha Ilustrada.

Senso comum 

Mas será que a leitura desses jornais é suficiente para a nossa cultura? Podemos perceber diferenças nos dois cadernos culturais. Como a Folha Ilustrada trata de assuntos para adolescentes não se importando muito com as palavras, utilizando um vocabulário do dia-a-dia, sendo algo pobre. Enquanto no Mais!, uma pequena fatia da sociedade é beneficiada com informação de melhor qualidade e conteúdo.

Por outro lado, o Mais traz uma leitura séria, preocupando-se em entrevistar pessoas especialistas no assunto. Divulgam filmes, literaturas mais cult. Na primeira página do Mais! (25/4/04), o leitor se depara com sete autores excêntricos, entre eles Dalton Trevisan e Thomas Pynchon. Nesta edição, foram publicadas entrevistas que discutem um pouco da personalidade e da produção literária destes autores. Enquanto na Folha Ilustrada da respectiva data, na primeira página, já são exibidas as primeiras cenas de "culturização" do espetáculo, com manchetes de cunho televisivo.

Mas como hoje em dia o que prevalece são os assuntos que envolvem a vida dos outros. A arte ficou um pouco de lado. As empresas investem mais em revistas de fofocas. Desta forma, percebe-se como esse tipo de "cultura" tem sido divulgado. Deixa-se de lado o mais importante que é a cultura consciente, produtiva, aquela que pode nos fornecer senso crítico e não particularidades das celebridades.

Foi-se o tempo em que se lia bons livros, hoje o que mais interessa a população são assuntos grotescos, tragédias ou até mesmo baixaria. A preocupação maior não é valorizar a cultura e sim o lucro. Mudando valores, predominando apenas o financeiro. O que poderíamos chamar de cultura popular, tornou-se cultura "populesca".



                          
                              

             

criação: lisandro staut