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O drama latino

Isadora Schmitt


Protagonistas da pioneira "Os Ricos Também Choram" As novelas brasileiras são referência no mundo inteiro. Famosas pela qualidade técnica e pelos enredos inovadores, muitas delas são exportadas para diversos países. Mesmo sendo as globais as preferidas dos telespectadores, outras emissoras ao longo da história conseguiram produzir alguns sucessos de audiência. 

No entanto, os que pensam que somente os folhetins brasileiros é que fazem sucesso estão muito enganados. A América Latina em geral apresenta um arsenal de produções de telenovelas. As mexicanas - famosas pelas tragédias e lágrimas - são muito conhecidas e assistidas. No Brasil, muitos dramalhões exportados do México já alcançaram sucesso de audiência.

O SBT é o maior responsável pelo sucesso e pela proliferação dos produtos do México no Brasil. Sucessos como as pioneiras Os Ricos Também Choram (1982) e Chispita (1983), além dos eternos seriados humorísticos Chaves e Chapolin, são responsáveis pela "mexicanização" da televisão no Brasil.

A Rede Televisiva é a rede de língua hispana que mais vende produtos para o resto do mundo. A empresa mexicana lidera o mercado de exportação de novelas em toda parte. No início da década de 80, ela foi a grande fornecedora dos programas mexicanos para o Brasil com a mediação do SBT.

Outra emissora mexicana tem tentado derrubar o sucesso da Televisiva dentro do mercado dos folhetins. A TV Azteca - apesar do pouco tempo de vida - está aos poucos conquistando o público das telenovelas. Mesmo apresentando características semelhantes à sua concorrente, ela ainda não apresenta os mesmos números de audiência que a mesma.

Mesmo que ainda exista preconceito em relação às novelas mexicanas, o SBT já conquistou muitos pontos no Ibope por causa delas. Um grande exemplo - talvez um dos mais relevantes - é o clássico infanto-juvenil Carrossel. Veiculada em 1991, a novelinha conseguiu a façanha de tirar a audiência do Jornal Nacional e da superprodução global O Dono do Mundo.

Thalia: trilogia "comovente" e espalhafatosaRosa Selvagem (1991), Simplesmente Maria (1991-1992), Topázio (1992-1993), a trilogia Maria Mercedes (1996), Marimar (1996-1997) e Maria do Bairro (1997) - estas com a chorona e espalhafatosa Thalia -, A Usurpadora (1999) foram alguns dos dramalhões mexicanos que mais fizeram sucesso no Brasil. Muitas outras poderiam ser citadas, mas o mais importante a analisar é a característica cafona que a maioria apresenta. 

Vale lembrar que o mesmo SBT adaptou textos latinos para serem produzidos no Brasil. Exemplo disso são as peculiares Pícara Sonhadora (2001) e Marisol (2002). 

Além das fronteiras do SBT

Outras emissoras brasileiras entraram na onda dos enlatados. A Record, por exemplo, foi uma delas. Novelas como a mexicana Olhar de Mulher (2000) e a venezuelana Joana, a Virgem (2002-2003) foram algumas tentativas da emissora da Igreja Universal para alcançar os telespectadores. 

"Betty, a Feia": crítica social por meio da secretária horrorosa Porém, o mais recente sucesso latino é a novela colombiana Betty, a Feia (2002-2003). Transmitida no Brasil pela emergente Rede TV!, o folhetim foi elogiado até mesmo por grandes autores, que visualizaram por trás da dublagem malfeita uma crítica à sociedade. Caracterizada como uma novela "trash", Betty, a Feia provocou nos telespectadores mais gargalhadas do que lágrimas.

A atual novela da Rede TV! é Pedro, o Escamoso. Também colombiana, a telenovela não é exatamente uma versão masculina da secretária horrorosa. Apesar do protagonista, Miguel Varoni, ser cafona e desengonçado, ele até que apresenta dotes físicos apresentáveis - se bem que Ana Maria Orozco, a intérprete de Betty, a Feia, não é o que se poderia chamar de horripilante debaixo dos óculos e das roupas bregas.

Por mais que as novelas latinas tenham pontos altos no Ibope, a maioria ainda é digna de muitos preconceitos. Pudera. A história em que a eterna mocinha pobre encontra o príncipe encantado e enriquece se repete em quase todas as tramas do gênero. A figura típica do mexicano - que é a do moreno com olhos puxados - acaba sendo sempre mostrada como o suburbano delinqüente. As belas mulheres de olhos claros e cabelos impecáveis, juntamente com os seus galãs musculosos, acabam sendo sempre as figuras principais dos folhetins dramáticos. 

Mesmo assim, será que as novelas brasileiras não são piores? Será que elas não mostram um Brasil que na realidade não existe? Por mais que a qualidade dos enredos e das produções seja superior, a influência que elas têm sobre os telespectadores é muito maior. O jogo de imagens e sons, misturado com temas da atualidade e paisagens cinematográficas, muitas vezes acaba sendo mais prejudicial que o "inocente" drama latino das telenovelas "trash".

                                        



criação: lisandro staut