|
|
|
editorial
| ombudsman | debate
| imprensa
mídia |
cultura | perfil |
nostalgia |
opinião
em
tempo | olho vivo | leitor
| e-mail | expediente
anteriores
| próximas edições |
inicial
Falsa
construção da história
Katianne Jouguet
As minisséries costumam retratar um determinado momento histórico. A Rede Globo de Televisão sempre investiu em gigantescas produções de teledramaturgia. Atualmente, ela tem um arsenal de seis estúdios de mil metros quadrados cada, sem contar os cenários, as cidades cenográficas, a quantidade de figurinos e outros.
A emissora já produziu várias minisséries; tais quais Anos Rebeldes
(1992), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1998), A Muralha (2000),
Hilda Furacão (1998), Os Maias (2001), O Quinto dos Infernos (2002),
Presença de Anita (2001), entre outras.
Enfim, há uma grande qualidade técnica. A principal intenção é seduzir o público. Fazer com que ele incorpore novos padrões de comportamento, ao mesmo tempo em que se insere na produção "cinematográfica". As minisséries da Globo retratam a sociedade, ou melhor, refratam.
A visão de mundo dos dramaturgos tem o objetivo de quebrar barreiras
dantes intransponíveis. Os livros literários, geralmente são adaptados
para a mídia televisionada. Logo, a cultura brasileira que deveria ser
divulgada se torna alvo de manipulação para fins de mercado.
Hilda Furacão, romance de Roberto Drummond, condensado para a
televisão por Glória Perez, conta a história de uma meretriz (Ana Paula
Arósio) que se apaixona por um frei (Rodrigo
Santoro). A história ocorre em Belo Horizonte. A
minissérie arrebatou enorme audiência; média superior a 30 pontos no
Ibope. O
principal objetivo das minisséries é entreter o público após as 23
horas. E a
maneira mais fácil de fazer isso é provocando polêmicas. Neste ínterim,
vale deturpar a imagem consagrada de um líder religioso, ao este se
apaixonar por uma mulher da vida.
As cenas das minisséries brasileiras geralmente escancaram sexo explícito,
imagens de nudez, etc. Hoje, essas são consideradas normais pela
sociedade. Tornou-se um hábito. O que se torna comum ao público não traz mais audiência.
Não é por acaso então que a Globo produz dramaturgias inovadoras em seu
roteiro é preciso chocar.
Tudo que é novo ocasiona em críticas gerais. O público,
de início não se conforma ou não incorpora a cena. Porém, a técnica
de convencimento consiste em repetição ou produções constantes. Tudo
é uma questão de tempo. Afinal, as pessoas “criticam” porque
assistem, e assistem porque viciam. Todo vício, por pior que seja, é
bom.
As
histórias, em nível de dramaturgia, são ótimas e merecem aplausos. Há
sempre superproduções. Os Maias foi uma delas. Custou
mais de dez milhões de reais. Pode-se também dizer que foi um espetáculo raro
de qualidade. Infelizmente não arrebatou a audiência. Apenas
15 pontos no Ibope.
Segundo o diretor de Os Maias, Luiz Fernando Carvalho, ‘É uma
obra de maior complexidade e necessita de um espectador reflexivo (...) a
preguiça cultural está instalada no País’. Realmente, ninguém
quer pensar ou refletir. Por isso que a linguagem das minisséries é tão
mesquinha e de baixo nível.
Pornochanchada
Não
é preciso haver conteúdo, pois isso não satisfaz o público. O
Quinto dos Infernos foi uma minissérie que ganhou destaque por seu
baixo calão. Celso Fonseca, em artigo para a IstoÉ (23/01/02), faz
menção a esta minissérie. Ele diz que “O Quinto dos Infernos
lembrou os velhos tempos da pornochanchada”. Ainda menciona cenas da
trama; fala sobre o estupro da mocinha pelo padrasto e sua primeira vez
com o namorado.
Uma minissérie pobre mesmo! Até no seu conteúdo histórico. Celso ainda
cita a visão de Maria Luisa Albiero Vaz, mestre em história social pela
Universidade de São Paulo (USP). Ela diz que “de história não tem
nada. A reconstituição cai no clichê e há um apelo sexual exagerado.
Parece uma Malhação qualquer”.
É lógico, que existe um pouco de realidade nas tramas. Porém, o que é
fato precisa ser mesclado. E já que a maioria da massa popular não tem
amplo conhecimento do passado brasileiro é mais fácil deturpar a história.
A minissérie A Casa das Sete Mulheres é um exemplo disso. A
Guerra dos Farrapos estrangulada e mexida de tal forma que engana quem
assiste. Logo, o povo acredita cegamente em tudo o que é transmitido.
Como sempre, a audiência e o Ibope estão em primeiro
lugar. E nada melhor do que mantê-los recheando as minisséries de
romances ou de cenas chocantes, que muitas vezes, nunca existiram.
Uma
das minisséries de maior audiência global foi Anos Dourados, de
1986. Ao
retratar a década de 50 apresentou a história entre os personagens de
Malu Mader e Felipe Camargo. Os valores se invertem paulatinamente, com
enorme sutileza. Um romance proibido pelos pais cativa o telespectador;
faz com que o mesmo torça pela união dantes mal quista pela sociedade.
Enfim, as minisséries brasileiras continuaram na mesma
linha de apresentação. Já tentaram fazer algo com conteúdo, mas o público
não adere. O que não gera ibope
sempre será descartado. Com este raciocínio, aonde iremos chegar?

criação: lisandro staut |
|