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Muito mais que o canal do esporte

Loriza Kettle

Devido à programação esportiva intensificada na década de 90, com transmissão ao vivo do esporte nacional e internacional, a Rede Bandeirantes ficou conhecida como o Canal do Esporte. Na época, mais especificamente no ano de 1993, a emissora comprou os direitos exclusivos de transmissão dos jogos de futebol e, ao mesmo tempo, revelou os locutores esportivos Luciano do Valle e Sílvio Luís.

Mesmo assim, quem conhece a história da Band sabe que ela não se limitou a transmitir apenas eventos esportivos. A emissora procura até hoje investir em outros gêneros, inclusive o jornalístico. E nesse contexto, dá uma atenção especial para as campanhas políticas.

Na década de 1960, apenas 23% dos brasileiros podiam votar. Quase 30 anos depois, em 1989, a classe eleitoral subiu para 58%, inclusive analfabetos e jovens a partir de 16 anos

Cenário político

Sabendo que nesta época o Brasil atingia 82 milhões de eleitores, Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Rede Bandeirantes, sugeriu a Johnny Saad - vice-presidente da emissora - convidar os 21 candidatos para um debate. Saad gostou da idéia e encarregou Mitre de organizar os debates, batizado de Encontro dos Presidenciáveis.

A partir daí o diretor de jornalismo gastou a maior parte do seu tempo orientando os assessores dos candidatos a respeito das regras do debate. O melhor debate foi o último, apresentado no domingo de 5 de novembro. Mesmo com o horário avançado, o programa foi assistido por 22 milhões de pessoas.

Por causa das eleições presidenciais, Mitre também modificou o Canal Livre, programa de entrevistas. Passou a chamar cada candidato individualmente para falar de assuntos específicos. Todos mandaram assessores ao Canal Livre, menos Fernando Collor. Mitre chegou a convidá-lo pessoalmente, mas nunca obteve uma resposta concreta. 

O interessante é que, apesar do PRN (partido de Collor) não mandar representantes ao Canal Livre, constantemente Leopoldo Collor, irmão do candidato, telefonava para Mitre para reclamar dos ataques dos outros assessores a Collor. O diretor de jornalismo dizia que a melhor forma de responder às acusações era enviando gente do PRN ao programa. Mas além de Leopoldo não mandar ninguém, processou Mitre e a Bandeirantes, responsabilizando-os das acusações sofridas por Collor no Canal Livre.

O Canal Livre existe até hoje e sempre entrevista uma personalidade em evidência, principalmente do cenário político. Participam do programa os jornalistas Fernando Mitre, Marcelo Parada e Fábio Pannunzio. Entre as personalidades mais marcantes que participaram do programa estão: Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, Henrique Meireles, diretor do Banco Central, e José Dirceu, presidente da Casa Civil e braço direito de Lula.

Fernando Collor também nunca esteve em nenhum dos debates do primeiro turno. Talvez a razão seria o fato de que o programa não tinha lá uma fama muito boa. O Jornal Nacional chegou a criticar o debate da emissora como "bate-boca entre candidatos, alguns dos quais, chegaram à troca de insultos".

Depois da votação de 15 de novembro, Fernando Mitre sugeriu aos assessores um debate entre Lula e Collor. As outras emissoras gostaram da idéia. Numa reunião decidiram que seriam dois debates transmitidos pelas quatro redes.

O primeiro debate foi marcado para a noite de 3 de dezembro na extinta Rede Manchete. Marília Gabriela, da Band, apresentou o primeiro bloco do programa que durou 2 horas e 45 minutos. Ao terminar o debate a jornalista procurou Collor para novamente convidá-lo a participar do Canal Livre, mas o candidato fugiu pela tangente. Nesse debate, Lula venceu.

O segundo debate aconteceu dia 14 de dezembro, quinta-feira, na Rede Bandeirantes. Enquanto Lula foi calorosamente recepcionado por Johnny Saad, Collor recebeu apenas um leve comprimento. Estava clara a preferência de Saad por Lula, mesmo tentando dispensar a mesma simpatia a ambos os candidatos. Lula logo avisou que não estava disposto a apertar a mão de Collor e, por essa razão, todo o script do programa foi modificado. A vitória de Collor ficou evidente no debate e na eleição.

História

A Rede Bandeirantes foi fundada em 13 de maio de 1967, com o começo das transmissões do canal 13 em São Paulo. A emissora começou a operar no bairro do Morumbi, num prédio construído especialmente para funcionar uma emissora de televisão. 

Sua história é marcada de altos e baixos. Podemos citar como exemplo o incêndio ocorrido em 1969 que destruiu os estúdios da Band e comprometeu toda a sua programação. Assim como o abalo da emissora com a crise econômica nacional, em 1990. São fatos negativos. Mas a Band também tem pontos positivos a se falar. Como em 1972, sendo a primeira televisão brasileira a transmitir sua programação em cores. Ou em 1990 ao inaugurar a maior torre de TV da América Latina. 

O presidente da Band, João Jorge Saad, entrou na área da comunicação em 1948, mas não se limitou a ser um comunicador. Ele investiu também em outras áreas como no comércio - o que o tornou intimamente ligado à cidade de São Paulo. Gostava de ser chamado de "seu João", e faleceu dia 10 de outubro de 1999 aos 80 anos de idade, vítima de câncer generalizado.

A Rede Bandeirantes hoje procura se desfazer da marca "O Canal do Esporte" e investe em outros gêneros dando um reforço especial para o jornalismo. O departamento de esportes foi terceirizado e está sob os cuidados de uma produtora que cuida especialmente de eventos esportivos. O que é melhor para o telespectador, que é presenteado com uma programação mais diversificada e informativa.

                                        



criação: lisandro staut