|
|
|
editorial
| ombudsman | debate
| imprensa
mídia |
cultura | perfil |
nostalgia |
opinião
em
tempo | olho vivo | leitor
| e-mail | expediente
anteriores
| próximas edições |
inicial
Independência
em tudo,
menos no jornalismo
Victor Drummond
No próprio nome já existe um grau de comprometimento com a pátria. Pelo menos é a pretensão. Sistema Brasileiro de Televisão. Este é o nome do conglomerado da comunicação criado pelo animador de platéias mais famoso do País. Silvio Santos iniciou sua carreira como empresário da mídia ao produzir programas independentes. Ele locava um espaço em outros canais onde veiculava sua produção.
Segundo o site oficial do SBT, "os principais executivos do grupo de empresas tinham a opinião unânime de que a locação de espaço e comercialização de seu programa, realizado como produção independente, era muito mais rentável do que assumir uma rede". Eles estavam apenas sendo realistas, já que a Rede Globo era líder de audiência e detinha 75% do investimento publicitário.
Silvio preferiu não dar ouvidos às opiniões e arriscou como todo bom homem de negócios. Em 19 de agosto de 1981, inaugurava o Sistema Brasileiro de Televisão. A primeira imagem foi de Silvio Santos assinando contrato presidido por Ernesto Geisel. Estava proclamada a independência de Silvio para produzir entretenimento à massa brasileira.
De acordo com o institucional do próprio SBT, o canal "partiu para uma comunicação quente e intimista, assumiu o conceito de televisão como mídia de massa, que oferecia, entretenimento, shows e informação. Dirigia sua programação para classes sociais definidas como B2, C e D1, que representavam 61% da população". Mas por onde andou o jornalismo sério e comprometido com a veiculação da verdade?
Noticentro
Em novembro de 1981, entrava no ar o primeiro telejornal, cumprindo o percentual de 5% de jornalismo na grade da programação. Tratava-se de um telejornal regional transmitido para São Paulo, chamado
Noticentro. O programa era exibido às sete e meia da manhã, um horário incomum para um telejornal. Nos horários nobres do SBT, prioridade era para filmes e desenhos animados. Quatro meses mais tarde, o
Noticentro passou a ser exibido em cadeia nacional às 18h. Um tempo depois, o jornalismo ganhou força com o
Jornal 24 Horas, exibido à meia-noite.
No período entre os anos de 1983 e 1987, o SBT investiu ainda mais no conceito de TV popular. Acontece que seu faturamento publicitário não passava de 5%. Buscando alavancar este quadro, entre 1988 e 90 contratou profissionais como Boris Casoy e Jô Soares. Boris pode ser considerado um ícone do jornalismo do SBT, cuja qualidade apresentou melhorias significativas durante seu período de contratação.
De acordo com a matéria de 3/12/00, publicada no site de O Estado de S.
Paulo, na década de noventa, "Boris Casoy, no SBT, firmou-se como um dos mais respeitados apresentadores, apoiando o
impeachment do ex-presidente Fernando Collor".
Se por um lado Boris apoiou abertamente o impeachment de Collor, por outro ele amenizou a crise do real iniciada em 1999. O leitor deve se lembrar da desvalorização do real. O brasileiro estava afoito em saber quando o dólar abaixaria, se haveria perdas salariais, como ficariam os juros, em que níveis se acomodariam as taxas de câmbio, enfim. Todos os jornais noticiavam o fato e tentavam responder as inquietações dos cidadãos através de entrevistas com os governantes. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, era sempre alvo da imprensa.
Mas Boris preferiu ir contra a maré. De acordo com o articulista Ivan Ângelo do
Jornal da Tarde de 2/2/99, "Boris parecia preferir dar um descanso nas angústias do seu telespectador. Entrevistou primeiro o psiquiatra Içami Tiba sobre drogas e a atuação da família e, em seguida, Plínio Marcos sobre sua carreira de dramaturgo".
O site TV Memória diz que Casoy havia sido contratado para iniciar um novo projeto jornalístico no SBT, que iria substituir o Noticentro. Com uma fórmula baseada nos noticiários nacionais dos Estados Unidos entrava no ar em 1988 o
TJ Brasil.
Esse telejornal teve alguns fatos interessantes. Os comentários de Boris Casoy e seu cenário não eram uma redação de verdade. Ele comentava as notícias mais importantes, pois não havia um número maior de reportagens. Assim, os comentários do âncora serviam como tapa-furo. No entanto, depois se tornaram marca registrada. Quanto ao cenário, era uma redação falsa num estúdio da Vila Guilherme que foram inundados pelas chuvas ".
O articulista Marcel Britto de Freitas, no site Geocities, também traça um histórico do SBT dizendo que "em 1991, no horário das 18h30, estreava no ar uma das mais polêmicas atrações noticiosas da casa, o telejornal Aqui Agora
visando ser uma arma do povo. Um jornal que mostrava a vida real como realmente era. Os âncoras eram Ivo Morganti, Patrícia Godoy, Sérgio Ewerton, Christina Rocha e Luis Lopes
Correa".
Marcel de Freitas afirma ainda que no início de 1997, o Aqui Agora saiu do ar para dar lugar ao
Disney Club. Bóris Casoy era então o único apresentador jornalístico do SBT, com seus 45 minutos de
TJ Brasil. Cansado de ver o seu programa mudando de horário a toda hora e descontente com o tratamento dado ao jornalismo, firmou contrato com a Rede Record em setembro de 1997, deixando a apresentação do seu telejornal no SBT que passou para Hermano Henning.
Hermano assume hoje o Jornal do SBT, transmitido à meia-noite. "Esse panorama de jornalismo em horários extremos continua até os dias de hoje. E há quem diga que o SBT não volte a investir em jornalismo no horário nobre tão cedo. Acontece que o acordo operacional firmado com a Televisa do México vai fornecer subsídio para que a rede exiba cinco novelas, das 17h até às 21h todos os dias. A saída seria uma possível criação de telejornais ao meio-dia ou boletins noticiosos ao longo da programação. Ou então, a aposta de muitos: a volta de Boris Casoy.", conclui Marcel.
Jornalismo assassinado
Mauro Malin, articulista do Observatório da Imprensa, afirmou na edição de 20/7/98, que no nascimento do SBT não havia jornalismo e que a emissora não veio ao mundo para isto.
Malin acrescenta ainda que "uma série de considerações mercadológicas e políticas levaram-no depois a ter jornalismo. Surgiu uma modalidade selvagem chamada
Aqui e Agora: alguns viram nisso uma evolução do telejornalismo, porque o câmera saía trepidando atrás do repórter resfolegante, ou do bandido, ou do policial".
Boris ocupava espaço com comentários porque não havia equipe de jornalismo que na televisão, é mais cara. Teve habilidade para fazer dessa necessidade de vocalização uma aparente virtude.
O jornalismo no SBT começou a morrer no dia em que Silvio Santos abandonou as pretensões político-eleitorais. Porque o jornalismo na TV é instrumento de política a serviço da empresa. O fim do jornalismo no SBT (com os 6% da obrigatoriedade legal) é uma exemplar volta às origens.

criação: lisandro staut |
|