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O cerne da notícia

Fabiana Amaral

Jornalista da AFP ferido em cobertura de guerra O papel das agências internacionais de notícias é algo digno de nota quando o assunto é guerra. E nesse amontoado de estopins, nada mais propício que olharmos os benefícios que esse eficiente meio de comunicação trouxe para a sociedade. Não esquecendo também dos pontos contrários, claro.

Desde seus primórdios, em 1835, a primeira agência mundial de notícias, a Havas, mostrou a que veio. No início, utilizando-se em sua maioria de pombos-correio, a agência de Charles-Louis Havas limitava-se apenas a notícias que interessavam aos países próximos, falando mais de economia e cotações.

Um pouco mais adiante, a mesma agência, já fazendo discípulos, lançou um ramo dedicado à publicidade. Mas, para "purificar" o jornalismo, se separou e adotou o nome de Office Français de l'Information (OFI).

Mais ou menos na mesma época, um alemão chamado Paul Julius Reuter monta um escritório no centro de Londres, para enviar notícias econômicas entre Londres e Paris por meio do ainda pouco utilizado telégrafo. Estava fundada a Agência Reuters. Surgiram muitas outras e ainda hoje permanecem, tanto para o impresso e online, como a gigante americana Associated Press, ou para rádio e tevê, como a britânica e premiada BBC.

Informação, como já se sabe, pode e rende muito dinheiro e os fundadores das agências de notícias aprenderam isso rapidamente. Contratando profissionais das letras de diversos lugares, no velho mundo, é claro, ou enviando os seus próprios, as agências começavam a crescer em tamanho e utilidade. E para tanto, serviam-se das mais recentes tecnologias inventadas que davam suporte para a comunicação. 

Os jornais de várias partes do mundo, sem ter correspondentes em outros países, o que custava muito, compravam as notícias "frescas" das agências e acirravam a concorrência em seu país. Nos períodos de beligerância a presença das agências internacionais se fez ainda mais significativa. Isso se pôde notar com a rusga entre os nazistas e a Havas, que a fez trocar de nome para o atual Agence France-Press.

O correspondente

No meio de conflitos de magnitudes portentosas, a maneira dos jornais atualizarem seus leitores é utilizar os serviços das agências de notícias. É aí que entra em cena um personagem por demais imprescindível e sobremaneira esquecido: o correspondente das agências de notícias. É esse profissional que verdadeiramente se arriscará buscando de fato as informações, para depois o correspondente internacional "informar" o seu jornal ou qualquer veículo.

É interessante pensar nessa realidade. A maioria dos meios de comunicação não tem correspondentes fora e compram as notícias das agências, que vendem a mesma informação para vários veículos, que editam o que já é editado. Curioso é pensar que vários veículos se arrogam detentores de determinado perfil, no que tange à cobertura internacional, mas não fazem outra coisa se não copidesque da mesma informação que seu concorrente.

Faz-se importante a menção honrosa a esses verdadeiros jornalistas que procuram a notícia. Vão onde se encontram os fatos. Afinal, se não fosse o trabalho das agências de notícias, pouco se saberia do que acontece nos cantos mais estapafúrdios desse mundo. Destaque para o fato de que ao enviar seus próprios profissionais, as agências também embutem sua ideologia para os demais veículos.

Certa vez, num badalado programa de entrevistas brasileiro, Cristina Mesquita, uma correspondente internacional de agência de notícias, que ficou famosa por ser a única jornalista brasileira no Afeganistão direto da linha de combate, disse ao gordo entrevistador que o trabalho de jornalista de agência era o trabalho sujo.

Não entendi direito o que a dita cuja quis dizer, mas atrevo-me a descordar. É o serviço mais perigoso - e até por isso sujo, literalmente -, mas é graças a estes trabalhadores e suas prestativas agências de notícias que os jornalistas empoladinhos podem se dar ao luxo de dar qualquer notícia internacional, principalmente de guerra.

É por meio das agências de notícias internacionais que em poucos minutos se sabe do bombardeio no Iraque, pelos Estados Unidos, ou a morte de dezenas de pessoas em determinada trincheira e, justamente por esse poder de fogo é que as agências internacionais de notícias comandam a artilharia midiática em nível mundial. Poucos atentam para este ponto da questão. Elas é que estão no cerne da informação.

                   



criação: lisandro staut