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Fábrica de sonhos

Delton Unglaub

Cena do filme Pearl Harbor: tentativa de justificação O medo gerado pelos terroristas e a crescente militarização dos Estados Unidos depois dos incidentes de 11 de setembro têm provocado debates intensos em torno dos destinos da democracia americana. Debates que levam à conclusão de que os Estados Unidos querem fazer o mundo todo acreditar que a história aconteceu e acontece daquele jeito - do jeito deles!

Antes da Primeira Guerra, os norte-americanos possuíam ideais pacifistas. Para reduzir este tipo de sentimento, o chefe do órgão oficial dos Estados Unidos para a propaganda interna transformou o cinema numa parte de um esforço global para vender a guerra ao público norte-americano.

Estudiosos notaram que no período das guerras, a depressão e a freqüência do povo em ir ao cinema cresciam proporcionalmente. Assim, os cineastas aproveitaram para ganhar mais dinheiro e também, de certa forma, manipular o pensamento dos americanos e de todos telespectadores ao redor do mundo.

Robert Levin, presidente de marketing e distribuição mundial para a MGM Studios, declarou à versão online do jornal USA Today: "Eu vi o cinema antes e depois de 11 de setembro e há um diferente senso de honra, sacrifício e heroísmo dos soldados nos filmes de guerra. Todo o conceito de heroísmo, sacrifício, todo o conceito de ir para a guerra pelas coisas que nós acreditamos é enfatizado de uma forma mais forte agora".

O cinema já foi acusado inúmeras vezes por rebaixar as preferências culturais do público, contribuir para a deterioração moral em geral, entorpecer as massas para chegarem à superficialidade política, mas a pior de todas seria criar uma imagem falsa do bem e do mal nas guerras.

Ótica estadunidense

Pearl Harbor, O Patriota, O Resgate do Soldado Ryan, A Guerra de Hart e Crimes em Primeiro Grau são exemplos claros, dentre muitos outros filmes de guerra, da sutileza dos cineastas em contar a história do ponto de vista estadunidense. Os filmes tratam basicamente do mesmo assunto: lealdade e deslealdade militar, patriotismo, o valor de cada americano e a luta pelos princípios americanos até a morte.

O Resgate do Soldado Ryan: vários homens para salvar umO Resgate do Soldado Ryan é um dos melhores exemplos desta ideologia, pois mostra oito homens arriscando sua vida para salvar apenas um. Sem contar as cenas de guerra, que mostram o sofrimento dos soldados americanos.

Pearl Harbor é uma tentativa de justificação das bombas jogadas em Hiroshima e Nagasaki. O filme conta a estória de um triângulo amoroso durante o ataque a Pearl Harbor. A história de Pearl Harbor é contada de uma forma romântica e com uma característica comum em todos os filmes de guerra americanos: a de que os Estados Unidos desejam paz.

As cenas de milhares de soldados americanos morrendo em câmera lenta enquanto os terríveis japoneses estão atacando são realmente tocantes. Mas, por que será que não foi feito nenhum filme sobre o episódio das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki? Será que um filme retratando os milhões de japoneses civis morrendo atingidos por uma bomba atômica seria um pouco tocante demais?

Outra interessante película é Crimes em Primeiro Grau. Neste, a trama é mais sutil; envolve lealdade e deslealdade. Um fuzileiro aprisionado tem que ser condenado para encobrir a morte de três jovens americanos num atentado feito por seu superior a mando de um oficial que atualmente é general e tem muito prestígio. Quando a sujeira começa a alcançar o general, ele determina a libertação do prisioneiro, encerrando o caso. O fuzileiro admite que matou as nove pessoas em El Salvador, mas é morto por um dos sobreviventes do massacre. 

Em Crimes em Primeiro Grau, a lealdade entre militares diante dos imperativos éticos da democracia americana é questionada. Os militares não têm o direito de enganar a opinião pública, mas acabam fazendo isto e prejudicando a vida de civis inocentes. 

A Guerra de Hart: qualquer sacrifício é válidoEm A Guerra de Hart, o protagonista envolve todos os prisioneiros para desviar a atenção dos alemães. Qualquer sacrifício é válido para derrotar o inimigo, ou seja, destruir a fábrica de bombas. Após a fuga e o sucesso no ataque à fábrica, Hart retorna ao campo e negocia a absolvição dos seus subordinados em troca da própria vida e acaba sendo executado pelo comandante do campo de prisioneiros de guerra. Neste filme, a lealdade entre os militares diante do inimigo é valorizada ao máximo. Quando se está em guerra, até mesmo as pequenas deslealdades entre companheiros são justificáveis para derrotar o inimigo.

Ficção versus realidade

Os filmes de guerra não podem ser tomados como realidade, mas sim como ficção, como um romance qualquer. Portanto, a maneira que um diretor vê a guerra nem sempre corresponde aos fatos. 

Em Hollywood, os norte-americanos são sempre inocentes. É interessante notar como os terroristas são vistos como fanáticos pela religião, sendo que se analisarmos friamente os fatos históricos, os Estados Unidos também podem ser considerados terroristas, pois o patriotismo fanático deles se tornou uma espécie de religião. O ditado diz que a história é contada pelos vencedores, mas não necessariamente nesse caso. Ela é contada por quem tem mais dinheiro e mais poder.

Depois de assistir a filmes de guerra, não fica estranho ver as conseqüências das novas campanhas militares americanas no Oriente Médio. Filmes como Pearl Harbor, A Guerra de Hart e Crimes em Primeiro Grau estão difundindo no Ocidente as condições necessárias para aceitação dos maiores terrorismos militares que os Estados Unidos sempre fazem com a desculpa de vingança. Afinal, George W. Bush mesmo disse: "Os Estados Unidos estão em guerra. E nas guerras quem não se sacrifica, será sacrificado".

                    



criação: lisandro staut