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A TV lá de casa

Delton Unglaub

Querido diário...

Papai trouxe para dentro de nossa sala uma televisão diferente chamada TV a cabo, que era uma beleza. Eram milhares de canais com apenas um toque no controle remoto. Papai, que sempre gostou de novidades da modernidade, foi logo fazendo a assinatura de uma TV a cabo. Ele queria deixar para trás aqueles canais convencionais da TV aberta porque faz um tempo que reclamava não ter mais paciência para os mesmos assuntos.

Depois de instalada, a TV ficou perfeita. Sempre tivemos muitos problemas com a antena comum lá em casa. As antenas das emissoras de TV ficam em locais totalmente opostos e dificilmente passava um fim de semana sem que meu pai não precisasse subir no telhado para arrumar a antena, enquanto nós ficávamos gritando: "Melhorou, piorou, volta, volta". Ele viu na TV a cabo o fim para seus problemas. E nossos também, afinal não víamos mais os fantasmas na TV.

Depois que papai fez a assinatura descobri que eu poderia entrar em contato com o mundo inteiro sem nem colocar os pés para fora de casa. A TV paga com a sua imensidão de canais, que parecem não ter fim, é uma companheira perfeita, bem ao lado da internet e dos serviços de deliver. Pergunto-me: qual é a razão então para sair de casa? Pelas coisas que poderia aprender, conhecer e as facilidades que o mundo oferece, aparentemente nenhuma razão.

Outro dia, a professora de Geografia lá do colégio comentou na sala que a TV a cabo aumentou a desnacionalização da programação da TV brasileira. Percebi isso quando comecei a trocar de canais e vi que a maioria dos canais era de origem norte-americana. Engraçado que nem era italiana, russa, francesa ou mexicana. Era norte-americana mesmo!

Na rua de baixo, mora um médico chamado Pedro Américo, sabe o pai da Kátia? Ouvi-o conversando com meu pai semana passada sobre este assunto e ele disse assim: "Aqui em casa, a TV é mais para os meus filhos, que são ligados em seriados. Eu mesmo não me interesso pela sua programação de filmes, pois muitos deles chegam bem antes em vídeo. E, para mim, a grande variedade de filmes não significa qualidade".

Kátia me falou que a TV por assinatura serviu como uma forma de cortar os gastos em sua casa com a locação semanal de filmes. Concordo com ela, pois seus irmãos pequenos gostam de ver várias vezes a mesma fita, então, eles gastavam mais com a locação de desenhos.

Só que aqui em casa, esta tal de TV por assinatura não é mais "uma beleza" como eu pensava. Meu pai sempre queria assistir o canal de notícias no mesmo horário que passa meu seriado favorito. Meu irmão só queria ver os canais de música e esportes todo o tempo - nem parece que existem outros canais. Minha mãe não brigava com ninguém, mas se não tivesse ninguém assistindo ela estaria plugada no canal de compras ou no de culinária.

O jeito foi comprar um segundo televisor com um aparelho "escravo". Este tal de "escravo" permite outro televisor passar os programas da assinatura. Assim, cada um pode assistir o quiser, na hora que quiser.

Por um lado, a assinatura de mais canais foi muito boa para nós por causa da "variedade", mesmo sendo norte-americana e pagarmos cara por ela. Não estamos mais presos à péssima recepção de canais abertos; a TV paga trouxe diversidade para nossa família.

Mas, por outro lado, essa diversidade tirou nossos pontos em comum. Hoje, eu não assisto mais à novela que passa na TV aberta com minha mãe e meu irmão não assiste aos esportes que passa na hora do telejornal com meu pai. Assinamos a TV a cabo, mas acabamos caindo na solidão a cabo, como diz aquela música famosa.

                   



criação: lisandro staut