|
|
|
editorial
| debate |
imprensa |
mídia
cultura | perfil |
nostalgia |
opinião
cotidiano
| leitor
| e-mail |
expediente
anteriores | próximas
edições | inicial
Caras e bocas
do cristianismo
Ana Paula Ramos
A imagem de Cristo é explorada na mídia de diversas formas. Fenômenos são formados, personagens polêmicas são criadas e "milagres" são sensacionalizados. Tudo isso reflete um fenômeno que acontece na religião do século XXI, secularizada e manipulada pela mídia.
O sucesso quantitativo das igrejas se tornou seu objetivo principal. No Brasil, é impossível falar deste fenômeno sem lembrar-se do padre Marcelo Rossi. Mais do que um astro religioso, Marcelo se tornou um ícone da mídia. Consegue reunir meio milhão de fiéis por mês em suas missas e já vendeu 450 mil discos no auge de sua "carreira". Uma nova religião surge após seu sucesso na mídia - a religião popular católica urbana.
No passado, longe das influências midiáticas, as pessoas que viviam nos meios rurais buscavam a experiência com Deus por meio da natureza. Mas na cidade, a própria natureza se transformou num bem de consumo usando imagens e linguagens religiosas para vender seus produtos.
Com a dessacralização da natureza e a desvalorização das cerimônias tradicionais,
as pessoas passaram a buscar Deus dentro de si mesmas, em suas emoções e no show apresentado pela TV. No entanto, os shows religiosos acabam por não promover nenhuma mudança real na sociedade, que, com tanto espetáculo, secularizou sua crença.
Nesta versão neoliberal de teologia apresentada pela mídia, Jesus não é mais a fonte de segurança, o dono do universo, mas sim o mercado, o giro de capital. Georfe Soros, um mega-especulador financeiro, ao falar sobre o princípio que une o sistema capitalista, diz que "esse princípio é o dinheiro; e o dinheiro se transforma num fim em si mesmo". Veja para onde a religião caminha.
A TV tem dado cada vez mais espaço para a cobertura de missas, lançamentos de CDs religiosos e entrevistas, sobretudo do padre Marcelo Rossi, que compete com movimentos religiosos da Igreja Universal do Reino de Deus e outras, como qualquer outro segmento de mercado ou produto à venda.
Ricardo Kotscho, responsável pelo canal 21 da Rede Bandeirantes, ressalta que a mesma imprensa responsável pelo fenômeno padre Marcelo em todo o País, condenou o trabalho do padre Júlio Lancelotti, que defende os direitos humanos dos menores da Febem e outros necessitados.
Mesmo fazendo parte da mesma Igreja, eles representam duas realidades bem distintas: um busca por meio da solidariedade o encontro com Deus; o outro prega a salvação individualmente pela música, dança e reza do terço.
Achei interessante um depoimento de um internauta, ao ler no Fórum da Globo
sobre a religião na mídia (tirando as palavras de baixo calão movida por sua indignação, reescrevo suas últimas palavras): "Não há um canal ou estação de rádio que não passe aqueles sacos de lixo ululante tentando (e pior,conseguindo) arrebanhar e roubar milhões de ovelhas ignorantes". Mesmo com tanto sucesso e produção dos programas religiosos, muitas pessoas não suportam a forma como Jesus é explorado na mídia.
Caricaturas religiosas
E essas são apenas algumas das faces que a TV apresenta. A imagem de Jesus ainda é explorada e multifacetada em muitos programas. As novelas e minisséries globais são exemplos típicos das caricaturas religiosas feitas pela TV.
A minissérie Hilda Furacão bateu recordes de audiência. Estreando no dia 27 de maio de 1998, atingiu 32 pontos no ibope. A belíssima e recatada Hilda (Ana Paula Arósio), moça de família mineira, abandonou o noivo para viver em um prostíbulo na zona boêmia de Belo Horizonte. Acaba por apaixonar-se pelo Frei Malthus (Rodrigo Santoro), que realiza seu exorcismo em plena praça. Os dois vivem um amor intenso e proibido.
A trama conseguiu cativar a atenção do País. O livro de Roberto Drummond, que deu origem ao folhetim, foi um dos mais vendidos à época, talvez devido à imagem criada pela minissérie, que relatava a união do sacro com o profano.
O que falar das recentes novelas Estrela-Guia, Um Anjo Caiu do Céu
e Porto dos Milagres? Pouco tempo depois de suas estréias, despertaram a reprovação da Igreja Católica e afins. Novamente, misturou-se o sacro com o profano, o misticismo ao cristianismo.
Jesus moderno
E quem não ouviu falar do Inri Cristo? Por muito tempo ele esteve em evidência em vários programas de TV. Conhecido em todo o país, a "reencarnação" de Jesus tentou ser levada a sério, mas, caiu nas graças (ou desgraças) da TV. Primeiro como notícia de telejornal e depois como atração do
Programa do Ratinho.
Num dos episódios, surgiu a pergunta: "A Bíblia diz que Cristo viria entre as nuvens. Como você explica isso?" Ele respondeu: "Sim, eu cumpri as escrituras vindo de avião". (Saiba mais sobre Inri Cristo na seção
Identidade.)
Dezoito de julho de 2002, mais uma oportunidade para a TV conseguir mais uns pontinhos no Ibope. Com toda a imagem de Jesus formada pela mídia, uma mancha no vidro de uma janela foi palco para mais algumas semanas de espetáculo.
Numa casa em Ferraz de Vasconcelos, SP, uma misteriosa figura lembrando a Virgem Maria parou o Brasil. Mais de 29 mil pessoas visitaram a casa no segundo dia da aparição. Mesmo após testes que comprovaram a falsa imagem, caravanas de vários estados ainda visitavam o local. No início de agosto, as visitas somaram 140 mil pessoas.
A partir deste caso, a TV ainda noticiou as aparições milagrosas em todo o mundo. Até a princesa Diana foi vista numa mancha - que seria de umidade -, na varanda da casa dos avós de uma criança, na Austrália.
A TV trabalha como convém. A imagem de Cristo é explorada de todas as formas para agradar gregos e troianos - digo, céticos e religiosos. Para observar cristãos ousados ou fanáticos, basta assistir algumas novelas. Se quiser rir um pouquinho do falso Jesus, assista determinados programas de auditório. E se ainda quiser fazer uma ginástica de Jesus, compre o CD do padre Marcelo ou assista algumas de suas missas.
A mídia criou vários tipos de Jesus, é só escolher o que mais lhe agrada. Isso não quer dizer que ele seja teu Salvador. Essa já é outra história!

criação: lisandro staut |
|