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 A
voz do povo
Fernando Torres
Assisto
ao
Jornal da Record em um televisor compartilhado. De repente, por volta das 20h, percebo que começam a se ajuntar mais pessoas na sala. Alguém, então, pede para mudar de canal. Ninguém se manifesta contra. Perfeitamente barbeado, William Bonner estende seu "boa noite" aos telespectadores, acompanhado da primeira-dama Fátima Bernardes, que faz o mesmo. Está começando o
Jornal Nacional.
A primeira edição do JN foi ao ar em 1.º de setembro de 1969. Caracterizou-se por ser o primeiro telejornal veiculado em rede nacional. À época, era apresentado por Hilton Gomes e Cid Moreira. Este só deixou a bancada em 1996.
Deve-se, porém, ressaltar a que veio o JN. É fato que a telenovela foi a primogênita do horário nobre. Na década de 70, descobriu-se que o perfil do telespectador era mulher, casada, por volta dos 30 anos. Isso explica a grande produção novelística à época, das 18h às 22h.
O JN nasceu para equilibrar esse quadro, atrair a platéia masculina, mas, ao mesmo tempo, segurar as mulheres para a próxima telenovela. Buscando diversificar seu público, a Central Globo de Jornalismo inovou. Conforme Mario Sergio
Conti, em Notícias do Planalto, "o JN era construído com frases telegráficas, vocabulário pobre, incapaz de aprofundar ou dar nuances às notícias". Perfeito para o povão.
Não se pode esquecer que o JN foi fundado com o objetivo de servir de porta-voz não oficial do governo militar. Pedrinho
Guareschi, em Comunicação e Poder, lembra que as Organizações Globo aceitaram a oferta de cinco milhões de dólares oferecida pelo Grupo
Time-Life, sendo que o apoio estrangeiro era proibido à época.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instalada em 1967, concluiu que a entrada do capital estrangeiro nas Organizações Globo se ligava ao golpe de 64. "Nesse período, os que assumiram o poder tinham necessidade dos meios de comunicação de massa, principalmente a televisão, para criar uma legitimidade que não possuíam", explica
Guareschi. Assim, a criação do JN simbolizava o pagamento da fatura.
Enquanto a censura reinava, tudo ia bem para o JN. Mas, com a era das eleições livres, o cerco se fechou. O telespectador já não era tão ingênuo como no início do telejornal e percebeu que as notícias veiculadas pelo
JN continham o dedo dos militares - ou do próprio dono; acabou por ficar conhecido como manipulador e omisso, rótulo que permanece até hoje. Quem não se lembra do debate de 1989 e dos elogios de Alexandre Martins ao Governo Collor?
Hoje, uma das maiores críticas atribuídas ao JN é a clara inserção de publicidade interna como matéria jornalística. Aberrações do tipo, "No
Fantástico de amanhã, você vai ver...". A moda, inclusive, atingiu até mesmo a distinta concorrência. O
Jornal da Record, tão irrepreensível há alguns anos, também sofre desse desvio. De uns tempos pra cá, Boris Casoy passou a "informar" semanalmente quem serão seus convidados do
Passando a Limpo.
Mas, então, qual é o segredo do Jornal Nacional, o mais antigo e mais assistido atualmente na televisão brasileira? Em 1988, por exemplo, o
JN alcançava 60 milhões de pessoas, cerca de 60% da audiência, sendo o programa mais assistido. Hoje, esse número caiu para 40 milhões, o que não deve ser visto como decadência, pois o contexto televisivo é bem diferente.
Cessem as pedras!
Não se deve jogar apenas pedras no telejornal. Desde que William Bonner ascendeu à bancada do
JN, em 1996, e três anos depois promovido a editor-chefe, o conteúdo melhorou notavelmente. Um exemplo disso foi a cobertura eleitoral de 2002, em que Bonner mediou brilhantemente três rodadas de entrevistas e dois debates.
E se falamos no príncipe-herdeiro, por que não citar a princesa? Lady Fátima também surpreendeu em 2002, ao abandonar temporariamente os trigêmeos e viajar para ao Japão e Coréia do Sul. Lá, roubou a cena de Ana Paula Padrão e mostrou que entende de futebol. (Só um pouco, não exagerem...)
Desculpem-me os anti-Globo, mas o JN tem tudo para fazer o melhor jornalismo do País. E o faz! Para seu público-alvo, o conteúdo das notícias não importa, mas sim a qualidade técnica, a imagem e som, e isso o
JN faz como ninguém. No caso da Guerra, a emissora montou um charmoso estúdio virtual sob o comando de Vinícius Dônola, sem contar as transmissões tremidas de Marcos Uchôa, no Kuwait. É a guerra da tecnologia, vencida pelo
JN.
Em 2001, o JN recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo e a Medalha do Mérito concedida pela FAO
(Food and Agriculture Organization). No ano passado, Bonner foi a Nova York concorrer ao
Emmy, maior prêmio do telejornalismo americano, pela cobertura dos atentados de 11 de setembro, sendo um dos quatro finalistas. Não foi desta vez e a premiação ficou
para a britânica BBC.
A maioria das matérias realmente inclui o toque de humanização, tão pregado nos manuais de reportagem. Ao noticiar a aprovação do novo Código Civil, por exemplo, a reportagem foi feita sob a ótica de um anônimo; o repórter acompanhou o seu dia-a-dia e mostrou as reais diferenças da nova lei - da forma como o povo entende.
Que o JN tem muitos erros, manipulações, inserções publicitárias e censura do patronato, isso é indiscutível. Mas, qual telejornal não é assim? Jornalismo e entretenimento: é disso que o povo gosta! Então pra que discutir? Afinal, a voz do povo é a voz de... Marinho?

criação: lisandro staut |
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