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Metamorfose ambulante

Alex Gonsalves

O Fantástico é um dos programas mais antigos da televisão brasileira. No ar desde 5 de agosto de 1973, vem passando por várias transformações e atualizações para manter seu prestígio. Mas esta metamorfose vem sendo questionada e criticada por muitos.

O programa já foi criado com a idéia, inédita à época, de misturar jornalismo e entretenimento. Mesmo em preto e branco, os responsáveis pelo programa intercalavam notícias com shows musicais, entrevistas e quadros. Resumia os principais acontecimentos da semana com atrativas diversões. 

Todavia, notava-se uma linha bastante jornalística na revista eletrônica o que, desde a década de 90, vem sendo resumida. O Fantástico se torna paulatinamente mais light, predominando gêneros populares e supérfluos.

Alguns têm criticado veementemente essa mudança de perfil, mas o fazem por não entenderem a estratégia global. Esta estratégia visa segurar a audiência de um público que está vulnerável às variações e inovações da concorrência, em especial do SBT, com programas de máscaras importadas: Show do Milhão, Casa dos Artistas, etc. 

Os pontos do Ibope que a concorrência alcança com estes programas diagnosticam a atração pública pela diversão e descontração. Os dirigentes globais têm se mantido alertas a isso, por isso aderiram a estratégia "se não pode vencê-los junte-se a eles", dando ao programa dominical uma cara de circo eletrônico.

Elementos fortificadores

A nova cara do Fantástico conta com elementos fortificadores. Um deles é o Domingão do Faustão, que emenda seu final com o início do Fantástico. Outro elemento é o final do Fantástico que se une a programas como No Limite ou Big Brother Brasil, com flashes durante a programação do próprio Fantástico. Assim, torna-se difícil desvencilhar um programa do outro.

Como a linha editorial dos programas quase sempre prima pelos pontos do Ibope, o programa se molda pelo gosto da maioria. Infelizmente, a qualidade do Fantástico caiu, e muito. Soma-se a isso, a mudança do perfil dos telespectadores. Muitos dos intelectuais brasileiros não o consideram um programa informativo, enquanto o povo, no geral, tem gostado do programa.

Reeducar, que deveria ser um dos potenciais da tevê, é algo deixado de lado. É muito mais fácil seguir as tendências do que lutar contra elas, por ideologia redentora. Essa foi a opção global para o Fantástico, aliás, um dos últimos programas a aderir ao perfil rebaixado da atualidade.

Analisando a edição de 23/3, sobre a cobertura da guerra de Bush contra o Iraque, o programa surpreendeu, mostrando críticas e opiniões dos dois lados. Digo surpreendeu porque esta não é a praxe da Globo. Nos programas sobre o atentado ao World Trade Center, por exemplo, o Fantástico pintou o Afeganistão como um país de fanáticos, extremistas, loucos, caracterizando toda uma nação pela atitude de um grupo que dela faz parte. 

Já nessa edição, houve um quadro relatando críticas a Saddam e outra a Bush. Apesar de isso ser o certo, jornalisticamente falando, não é o comum, por isso surpreende. Fica aqui a incógnita de saber se o Fantástico fez isso por causa da falta de tato de Bush e se tal imparcialidade se efetivaria da mesma forma se fosse um outro governante americano não tão desastroso. Como saber?

                                        



criação: lisandro staut