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Extra! Jornalismo contém entretenimento

Delton Unglaub

Internauta pergunta para Sidney Garambone, editor-chefe do Globo Esporte: Sidney você não acha que o Globo Esporte é muita gracinha e pouco jornalismo?

Sidney Garambone: A gente tenta mesclar os dois porque só o "futebolês" afasta o público que não é tarado por bola. Mas às vezes erramos na mistura. (Sidney Garambone, editor-chefe do Globo Esporte em bate-papo com os internautas no site Psiu.)

Atualmente, muito mais do que no passado, o jornalismo que é ensinado na faculdade ameaça tornar-se uma atividade rodeada de interesses por parte das centrais de jornalismo. Seria estranho pensar em uma geração futura de jornalistas que nunca se formaram em Jornalismo ou foram treinados para viverem em função de celebridades e atrás de escândalos?

Mônica Lewinsky, que adorava um microfone, mas não tinha dom para ser jornalista fez muito sucesso em uma entrevista com Bárbara Walters. Depois da entrevista, recebeu um convite para fazer parte do programa The View. Ela é um exemplo vivo da busca constante dos veículos de mídia pelo caminho mais fácil. 

Mas, afinal, o que Globo Esporte, Programa do Jô e Big Brother Brasil têm a ver com jornalismo?

Entretenimento "direcionado"

O Globo Esporte nasceu em 14 de agosto de 1978. Em seus 23 anos de história, passaram pelo programa editores como Edil Valle Júnior, Ricardo Pereira, Luís Antônio Nascimento, Ricardo Porto, José Antônio Geheim, João Ramalho, Décio Lopes, Marcos Malafaia, entre outros que teriam capacidade de fazer algo relevante e não redundante. 

Hoje, o programa conta com apresentadores de qualidade, como Mylena Ciribelli. A entrada na TV Globo aconteceu em 1991, na bancada do Esporte Espetacular. Mylena agradou e acabou também à frente do Globo Esporte

Léo Batista é o apresentador esportivo mais antigo da emissora e foi fundador dos programas Copa Brasil, Globo Esporte, Esporte Espetacular e Placar Eletrônico. O convite para entrar na TV Globo veio em 1970. Maurício Torres reveza a apresentação do Globo Esporte, com as notícias esportivas do Bom Dia Brasil.

O Globo Esporte foi criado com o objetivo de mostrar com veracidade as últimas novidades do esporte. Entretanto, atualmente, o programa tem sido tendencioso, pois procura promover jogadores talentosos, mas com pouca mídia. Tome-se como exemplo o caso de Robinho, jogador do Santos, que aos dez anos foi entrevistado pelo Globo Esporte. Desde então, sua evidente habilidade é reforçada continuamente pelo programa, que chegou a ponto de compará-lo a Pelé. 

Talvez, o lucro da emissora nesta linha editorial seja a formação de ídolos do esporte, pois ídolos geram audiência, e audiência é lucro. Ou seja, o bom e velho capitalismo.

Recentemente, um jingle de um jogador de um time pequeno, encerrou o programa por três dias, sendo dois consecutivos. Quando não há assuntos, Globo Esporte tem o hábito de perseguir jogadores. Alguns atletas do Flamengo resolveram dar uma festinha e a matéria apresentada foi sensacionalista e incriminadora, muitas vezes não respeitando a vida particular dos jogadores.

Por causa da audiência ter caído consideravelmente entre 2000 e 2001, a equipe do Globo Esporte resolveu acompanhar as tendências e mudar de cara. "Precisávamos fazer com que o Globo Esporte voltasse a ser divertido. O esporte estava passando por uma mudança que a televisão não tinha entendido. Nossa proposta era transformar um fato esportivo em um evento de entretenimento", explica Décio Lopes, ex-editor-chefe do Globo Esporte, em declaração ao Portal Globo.

Entretenimento direcionado para classe alta

Jô Soares é um grande profissional - em todos os sentidos -, um dos melhores da tevê brasileira. Sabe conduzir a entrevista de tal forma que não importa a classe ou nível cultural do entrevistado que a entrevista terá conteúdo (dentro do possível). 

O programa se inicia logo após o Jornal da Globo. Este fato influi no perfil do telespectador de Jô; a audiência do programa é formada, basicamente, por empresários e universitários de classe média e alta, que chegam tarde em casa, buscando informações e entretenimento. 

Cientes de seu público, os produtores do Programa do Jô e direcionam o show de forma informativa e não de indução de idéias. Informativo, pois suas entrevistas são voltadas para a divulgação e descrição de novidades e curiosidades. 

O entretenimento cabe ao apresentador, que de forma criativa, insere o humor sempre que possível, mas sem perder o rumo da informação. Os altos e baixos são freqüentes, até mesmo durante uma entrevista.

As ferramentas para este talk-show são as mais variadas. O avançado suporte tecnológico possibilita inúmeros tratamentos da informação. Max Nunes é o segundo cérebro de Jô Soares, sempre com insights que vão diretamente ao ouvido do apresentador.

Entretenimento direcionado para classe baixa

É triste ver um jornalista talentoso como Pedro Bial ser comparado com Silvio Santos - nada contra, mas cada macaco no seu galho. Mas esta é a pior das misturas de jornalismo e entretenimento da televisão brasileira: Big Brother Brasil.

Na primeira edição do programa, Kleber Bambam foi o grande vencedor do BBB. Com 64% dos votos, o campineiro arrematou 500 mil reais e um Fiat Marea. Nesta versão, apesar da Globo negar, muitas coisas que aconteceram na casa foram sutilmente manipuladas.

Provavelmente nunca saberemos o quanto certos destaques foram coincidentemente utilizados para a erguer a audiência do programa: a boneca de Bambam (que fez papel de bola de vôlei para o náufrago Bambam), a prolongação da estadia de Serginho no Brasil (por uma causa nobre, a audiência), a gravação do CD de André (no qual a gravadora aproveitou apenas a imagem, porque o talento ainda está por vir) e assim por diante...

O caubói Rodrigo venceu a segunda edição do BBB, com 65% dos votos. Dessa vez, o destaque ficou para os melosos Manuela e Thyrso. Posteriormente, o casal BBB teve seu casamento totalmente pago pela emissora (tudo para manter as aparências de realidade), sem falar no caso abafado da participante Cida (parente de alguém da Globo). Realidade? Provavelmente só o faxineiro sabe de toda a sujeira.

Nesta última edição do programa os participantes realmente jogaram o BBB - até então ninguém havia pensado em jogar, apenas aparecer. Dhomini um dos participantes mais odiados dentro da casa, foi o mais popular dentro dela. Com 51% arrematou meio milhão e duas namoradas (o sonho de todo homem). Agora Dhomini poderá realizar um de seus objetivos desde que entrou no programa: conseguir a popularidade necessária para se eleger em qualquer cargo político. 

Outra característica do programa é adicionar fatores que poderão trazer audiência: mulheres vistosas, negros, pessoas de fala simples (de certa forma ignorantes), pobres, pessoas com um gênio mais forte, etc. Com a mistura, não há como não ter brigas, relacionamentos picantes ou dramas. 

A "realidade" no programa BBB é uma característica jornalística, talvez por isso um jornalista como apresentador. Essa é a única explicação para o crédito da Central Globo de Jornalismo no término do programa. Logo o jornalismo real fica dependente do entretenimento

Jornalismo e entretenimento

Repito a pergunta feita no início: o que Globo Esporte, Programa do Jô e Big Brother Brasil têm a ver com jornalismo? Muito pouco ou quase nada além de entreter com informações. 

Neste mundo globalizado, onde a mídia reina tranqüilamente, o verdadeiro jornalismo fica por conta do entretenimento, mas tudo isso graças ao faturamento das empresas. A função social de cada programa então seria colocada da seguinte forma: BBB, legitimar o perfil e a cultura do povo; Programa do Jô, divulgador da cultura; Globo Esporte, criar novas tendências para serem aproveitadas no futuro.

Concluo este artigo com uma declaração do ombudsman da Folha de S. Paulo, Bernardo Azjemberg: "O terreno árduo da reportagem investigativa, o trabalho isolado de questionamento dos poderes estatais e privados, a missão pública de prestação de serviços informativos à sociedade encontram-se pressionados pelo retorno mais fácil, propiciado pelo jornalismo de entretenimento e da adesão à maioria".

                                        



criação: lisandro staut