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Se Bourdieu estivesse vivo...

Allan Novaes

A interferência do mercado no perfil editorial dos veículos jornalísticos causa tanta repulsa para os profissionais da imprensa como a credencial de funcionário do ano de Rubens Barrichello irrita os fãs brasileiros da Fórmula 1 ou a entrada de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras escandaliza literatos por todo o País. Divulgar a informação sob os ditames da fidelidade e relevância ou sob a influência da concorrência capitalista tem sido a grande controvérsia da mídia moderna. Essa polêmica incentivou Pierre Bourdieu, sociólogo e ativista antiliberal, a afastar-se temporariamente do palco das tensões político-sociais francesas para engajar-se na luta contra o mau jornalismo de seu país anos atrás.

Integrante de uma capacitada linhagem da França, juntamente com Jean-Paul Sartre e Michel Foucault, Bourdieu colaborou para a produção intelectual das ciências humanas de maneira inquestionável. Crítico feroz do sistema capitalista pró-globalização, Bourdieu, falecido há cerca de seis meses, escreveu 20 obras sobre sociologia. Com exceção de uma.

"Sobre a Televisão", livro de bolso com 95 páginas, tornou-se pivô de acirrado debate na mídia francesa. O tema não era novo: a má conduta da mídia por estar dirigindo programas de TV visando o furo da notícia - objetivo não-nobre para vencer a concorrência. A procura por notícias de grande apelo popular fez com que os jornais franceses perdessem os aspectos que os diferenciavam um do outro.Transformaram-se em enlatados uniformes. Todos transmitiam as mesmas notícias e, com o tempo, os mesmos furos. 

Furos esses que foram os principais alvos de críticas de Bourdieu, uma vez que a informação estava comprometida pelos interesses do mercado e sujeita às decisões do patronato. A busca exagerada da informação mais difícil ou menos acessível e a exclusividade da notícia "quente" ou inédita tinha o objetivo de deixar os concorrentes para trás. Contudo, "furar" o concorrente implicava em "furar" o leitor, desejoso por obter notícias relevantes e legítimas.

A Central Globo de Jornalismo merece ser parabenizada por suas recentes exibições. Muito mais do que ter o furo como elemento principal para vencer a concorrência, a emissora do clã Marinho cria e manipula seus próprios furos! Nem a mídia da França, pertencente ao primeiro mundo, poderia revelar esse estratagema genial e inescrupuloso. Agora, o furo de reportagem está associado à autopromoção. Vence quem consegue se promover mais produzindo notícias inúteis sobre fatos irrelevantes. Não podendo ser diferente, o trabalho jornalístico termina em pizza e publicidade (própria).

Por isso, vê-se em pleno Jornal Nacional a predominância de reportagens sobre a convivência conturbada dos moradores da casa do Big Brother Brasil. Em detrimento das notícias chatas sobre política, sociedade e economia, via-se Fátima Bernardes e William Bonner anunciando os participantes do "paredão". 

A jogada é fantástica e a lógica é simples: gasta-se milhares de reais para se criar um programa que atraia a população, ou seja, o reality show; a população é atraída - como voyeurs por janelas sem cortinas - e responde com interesse; a imprensa reage noticiando insistentemente o fato e se desvencilha de qualquer acusação de banalidade ao se esconder atrás do interesse e da necessidade que ela própria criou. Afinal de contas, como negar notícias ao povo? Eles têm direito à informação assegurado por lei! 

Assim, o BBB torna-se um furo, cujo grande beneficiário é a emissora que detém os direitos de divulgação e reprodução. Os concorrentes consolam-se em noticiar fofocas e boatos sobre o que ocorre dentro da casa, participando de uma campanha publicitária em favor do concorrente ("se não você não consegue vencer o inimigo, faça com que ele se una a você, mesmo forçadamente)". 

As palavras do falecido sociólogo francês são pertinentes: "Penso que a televisão, através de diferentes mecanismos (...) expõe a um grande perigo às diferentes esferas da produção cultural, arte, literatura, ciência, filosofia, direito; creio mesmo que, ao contrário do que pensam e dizem com toda a boa-fé os jornalistas mais conscientes de suas responsabilidades, [a TV] expõe a vida política e a democracia a um perigo não menor."

Caso estivesse vivo, Bourdieu seria um ombudsman honoris causa da televisão tupiniquim a fim de lutar contra a autopromoção. No entanto, isso não duraria muito. Logo ele ouviria, em acirrado debate, as grandes empresas de comunicação justificarem seu procedimento mencionando o risco-Brasil e a instabilidade do cenário político brasileiro pré-eleições. Ouviria as empresas apresentando argumentos marqueteiros em prol da sobrevivência como motivadores para sua conduta. 

Ao observar a negligência quanto à ética e à seriedade dos serviços prestados Bourdieu tomaria uma atitude radical: deixaria o Brasil. Ele não agüentaria lutar por muito tempo contra essa estratégia de autopromoção que corrói o senso ético da prática jornalística e demonstra não ter perspectivas de reversão, mas de complexo aprofundamento.


                    



criação e desenvolvimento: lisandro staut e siloé joão