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"O Brasil se vê por aqui"  

Marisa Ferreira

Se na idéia de democracia está implícita a necessidade de uma mídia livre, então, para se saber se existe democracia, deve-se procurar uma mídia nessas condições. Lógico, não é? Agora, olhando para o Brasil, com uma política democrática relativamente nova, não se pode julgar sua democracia sem pensar na sua mídia. E em qual veículo pensaríamos primeiro, senão na emissora de TV mais assistida no País, a TV Globo?

A Globo não é somente a emissora com maior audiência, mas uma das primeiras a alcançar um respeito com relação ao jornalismo brasileiro - daí o "Padrão Globo de Jornalismo" - e que contém em suas páginas viradas uma história interessante, que se funde com a do País. Para comentar o envolvimento da TV Globo na política democrática do Brasil é necessário primeiro uma rápida olhada em sua comunicação durante o período de repressão ditatorial.

Durante o AI-5

Lançada em abril de 1965, três anos antes da decretação do Ato Institucional n.º 5, a emissora só ingressou realmente no mundo do jornalismo com a criação do Jornal Nacional, veiculado pela primeira vez em 1.º de setembro de 1969. O telejornal se tornou líder de audiência e, conseqüentemente, o programa mais importante da Central Globo de Jornalismo. Seria pouco verdadeiro afirmar que a empresa não dispunha de algum tipo de apoio governamental para adquirir tecnologia, criar e fazer crescer a TV Globo como fizeram, principalmente num período de tanta pressão sobre os meios de comunicação. Mas sem provas, não se afirma nada, tudo se torna pura especulação.

No entanto, seria também uma inverdade rotular a emissora como o canal oficial do regime militar. Ela também sofreu censura como vários outros veículos: cortes de imagens, mudança de expressões verbais, omissão de eventos e nomes proibidos e até repreensão por gestos ou posturas vistas como contrárias ao regime. Pioneiro no jornalismo, Armando Nogueira reproduz o sentimento dos jornalistas que passaram por essa situação afirmando que "a censura é dolorosa como uma doença, suporta-se porque há sempre esperança e instinto de sobrevivência".

A Globo se manteve quase inatingível pelas dificuldades econômicas internas do País e se empenhou em crescer onde havia menos limitações: no exterior. Em 1970, ela abriu escritórios e espalhou repórteres pelos pontos centrais do mundo saindo em vantagem com relações aos outros veículos, que só noticiavam por meio das agências de notícias. Este crescimento, ocorrido relativamente cedo para a emissora, proporcionou uma vantagem em longo prazo, pois foi essa precoce consolidação no exterior que se revelaria em competência maior para coberturas internacionais de relevância no futuro.

A traidora

No entanto, uma luz democrática no fim do túnel opressor começou a surgir. Em 1979, com a eleição do general João Batista Figueiredo, e em 1983 com uma emenda que propunha o restabelecimento das eleições diretas para a Presidência da República. Durante estes processos iniciatórios, a Globo se limitava a divulgar os dados sobre o processo sem grandes contribuições para a instauração da democracia. 

Esse comportamento foi muito criticado, principalmente depois de 25 de janeiro de 1984, durante o grande comício realizado a favor das Diretas Já na Praça da Sé, em São Paulo. A emissora noticiou o fato como sendo um show em comemoração ao aniversário de São Paulo. 

Democracia à vista

Foi somente sob o governo de José Sarney que a emissora começou a se envolver mais no cenário político. Na confusão financeira que a implantação do Plano Cruzado de Sarney causou, o jornalismo da Globo foi o veículo mediador entre o governo e o povo explicando os benefícios e malefícios à população. 

Em 1989 foram realizadas as eleições diretas para a Presidência - o direito ao voto, tão esperado direito pelo cidadão brasileiro. Foi para esse evento que se realizou o debate político que ficou marcado na história: o debate entre os presidenciáveis Lula e Collor. A repetição parcial do debate pela Globo "clareou", para os indecisos, a ligeira vantagem que Collor tinha tido sobre Lula, o que deixou grande parte do País indignada pela sugestão de candidato feita pela emissora. 

Antes da exibição desse resumo a Globo já havia sido acusada de privilegiar Collor. Representantes da emissora declararam apresentar a mesma quantidade de exposição a todos os candidatos principais. Se os brasileiros foram influenciados ou não pela emissora, a verdade é que Collor venceu. Apesar de rapidamente ter se mostrado uma péssima escolha.

Reviravolta

De 1990 a 1992, os brasileiros viveram meses de perplexidade e constantes adaptações pela desestabilização econômica que as decisões de Collor trouxeram e, em seguida, pelas crescentes denúncias de corrupção direcionadas à cúpula do governo. A corrida pela cobertura imediata dos acontecimentos foi intensificada, e o jornalismo da Globo variava entre a expressão do sentimento nacional de descontentamento e as tentativas de explicar o que acontecia aos cidadãos. 

Se antes a emissora fora acusada de privilegiar Collor, o mesmo não se dava meses depois da eleição. Desde investigar tudo o que "cheirava" à fraude, divulgar em primeira mão os escândalos e declarar-se abertamente contra Collor - ao deixar que um de seus repórteres e câmeras fossem pintadas de verde e amarelo pelos jovens "caras-pintadas" no protesto nacional contra Collor -, a TV Globo fez de tudo. A favor do impeachment? Era o que parecia.

E assim foi. Em outubro, Collor sofreu impeachment e Itamar Franco tomou a Presidência. Mesmo com Collor afastado, a emissora continuou a perseguir os corruptos. Os repórteres agiam como verdadeiros policiais desvendando casos e denunciando a corrupção nacional.

Novo rumo

Com as eleições de 1994 se aproximando a preparação para a cobertura teve início. A contagem de votos simultânea foi organizada e tudo foi aprontado para uma melhor cobertura eleitoral. Lula, desta vez sem Collor, era o candidato favorável. No entanto, surge do governo atual (Itamar Franco) Fernando Henrique Cardoso, um dos criadores do Plano Real que começava a demonstrar ser um plano viável. No processo de exposição dos candidatos, a Globo foi novamente acusada de parcialidade e de privilegiar o candidato do governo, mas a acusação não afetou a empresa, pois não foram devidamente provadas.

Enquanto isso, a emissora aumentava sua cobertura sobre o Plano Real buscando elucidar as questões econômicas mais complexas e acabou se tornando a principal fonte nacional de informação simplificada sobre qual seria o rumo da nação.

Provavelmente, para que o erro de parcialidade não acontecesse novamente, a Rede Globo preferiu não realizar um debate entre os candidatos. Ao contrário da eleição anterior, Fernando Henrique Cardoso ganhou a eleição no primeiro turno.

A serviço do povo

A partir de 1996, como conseqüência de algumas mudanças na Diretoria de Jornalismo, a vertente de defesa do cidadão tomou maior importância nos telejornais. As coberturas eram mais investigativas, com mais denúncias e cobranças às entidades públicas relacionadas ao serviço à comunidade. Aos poucos, essa tendência obteve boa aceitação do público e lentamente se espalhou por todas as filiais da emissora.

A rede intitulou-se intermediária oficial entre as entidades públicas e o público. Uma espécie de "justiceira nacional". Como afirmava o diretor da Central Globo de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, no livro Jornal Nacional: a Notícia faz História, o objetivo do telejornalismo da Globo é converter "as questões legais e os procedimentos do Estado em coisas que afetam o público".

Este comportamento, face aos acontecimentos sociais brasileiros é a característica mais forte do jornalismo na Globo estampada cada vez mais nas coberturas políticas da emissora. Em cada transmissão de escândalo, político ou social, de corrupção ou imoralidade em busca pela Justiça, pelo "serviço ao povo", esta é a linha que se destaca.

Democracia e tecnologia

Adepta do elemento criatividade e inovação, a emissora se preparou com antecedência para as eleições de 2002. Contando com mais experiência, a emissora se inspirou nos debates eleitorais americanos para criar algo inusitado e pioneiro na cobertura eleitoral. No primeiro turno, a busca pela igualdade de exposição e explanação das idéias dos candidatos foi a tônica na produção. No segundo turno, a inovação veio com o debate em estilo de arena no qual os dois candidatos finais, no caso Lula e Serra, podiam se deslocar livremente e respondiam perguntas feitas pelos brasileiros.

O contraste entre a cobertura das campanhas eleitorais de Lula no passado e a campanha de 2002, principalmente na reta final, é notável. Poderia ser uma mudança na opinião da emissora, como apenas um reflexo da mudança de opinião dos brasileiros.

Viva a democracia

Quando questionada por ter agido com descaso perante as demonstrações populares de descontentamento durante o período militar, a Globo afirma que a vigilância da censura sofrida por ela era muito maior do que para qualquer outro veículo. E que pela ética, a organização não procurou ser neutra, por estar ciente do tamanho da influência exercida sobre o povo brasileiro. Quando é acusada de privilegiar candidatos para eleições, ela afirma apenas retratar a predileção dos brasileiros.

Se a Globo realmente contribuiu para a democracia livre brasileira - se é que ela alguma vez existiu -, cabe a cada espectador interpretar os fatos. A grande verdade é que uma emissora conseguiu se manter calada o suficiente para crescer e ser livre. Ao mesmo tempo em que mostrava o suficiente para se manter popular. 

O mundo realmente é dos espertos.