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Porta da esperança

Danúbia Guimarães

Grande divulgador da mídia de massa, Sílvio Santos possui um espírito "multiplicador". De vendedor de quinquilharias no trajeto Rio-Niterói ao "homem do Baú", Sílvio Santos era preferência em praticamente todos os lares brasileiros na sua extinta Rede TVS.

Naquela época, a ditadura militar já dava ares de brandura, e alguns já idealizavam as "Diretas Já", que só ocorreria três anos após a inauguração da nova rede de televisão, em 19 de agosto de 1981. Nada parecia impedir o "cenourinha", apelido herdado da infância, de alcançar seu lugar ao sol.

Com a extinção da pioneira TV Tupi, seis grupos obtiveram o direito a uma das duas redes de TV, localizadas no Rio e a outra em São Paulo. Entre esses grupos, concorriam o Jornal do Brasil, o Grupo Visão, a Abril, o Grupo Capital, o Grupo Bloch e o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). Pouco tempo depois, apenas três grupos permaneceram no páreo: o Grupo Capital, o Grupo Bloch e o SBT. A partir daí, a grande preocupação do governo era em como dividir duas redes de televisão para três grupos.

Em busca do Baú


Enquanto o Grupo Capital e o SBT se "engalfinhavam" para decidir quem ficaria com a emissora de São Paulo, Oscar Bloch foi direto à fonte. Pegou o primeiro avião com destino a Colômbia para se encontrar com o presidente João Figueiredo. Após sondar o espaço para saber se o assunto "concessão" não aborreceria o militar, o representante do Grupo Bloch conversou com o "homem". Na noite do jantar de recepção, oferecido pelo presidente Ayala, Bloch assegurou sua concessão. 

O apresentador Sílvio Santos também mexeu seus pauzinhos aqui do Brasil mesmo. O empresário contratou o primo da primeira-dama, Dulce Figueiredo, para ser o apresentador de um programa dominical chamado A Semana do Presidente, no qual resumia todos os passos do presidente durante a semana. Na verdade, a programação não passava de um "afago" ao ego de Figueiredo.

Após diversas tentativas do governo de negociar os direitos às três emissoras, ficou decidido que o Grupo Bloch e o Sistema Brasileiro de Televisão receberiam as concessões, já que, segundo o Ministério das Comunicações, estes grupos apresentaram um projeto que mais tinha a ver com os objetivos do governo. Notava-se claramente quais eram os verdadeiros objetivos do governo.

Logo, tornou-se unânime entre as atuantes emissoras a conclusão de que o ingresso de duas novas redes de televisão dificultaria as negociações de espaço publicitário, tornando a concorrência acirrada entre elas, salvo a Rede Globo, que na época abocanhava 60% de anúncios publicitários.

Anos dourados e declínio

Sucesso entre as classes populares nas tardes de domingo, Sílvio Santos apresentava vários programas. Um dos mais famosos era o Domingo no Parque, uma competição infanto-juvenil entre escolas. Outros programas já consagrados pela extinta TVS garantiram o sucesso do SBT, como o Qual é a Música e o emocionante A Porta da Esperança. Além de filmes, desenhos e programas humorísticos. Essa estratégia funcionou e, ao final do segundo ano no ar, o SBT já alcançava 30% da audiência.

Novo século, velhas fórmulas. Após quase 20 anos no ar, o desgaste da receita de Sílvio dava vestígios de declínio. Repetições de novelas mexicanas e filmes, a falta de um núcleo jornalístico sério e outros fatores fizeram despencar o índice de audiência da rede. 

Às vésperas da comemoração de seus 24 anos de existência, Sílvio Santos não é mais um multiplicador de entretenimento de bom gosto, parece ser multiplicador de tédio e mau gosto. A solução? Como já dizia o próprio apresentador nos tempos de glória: "Vamos abrir as portas da esperança."