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Jornalismo altruísta

Danielson Roaly

Jornalistas ou juízes sociais? Burros ou heróis da pátria? Qual a finalidade de falar a verdade de forma intransigente "doa a quem doer". No período da ditadura, denunciar qualquer ação do governo que soasse como ilegal era motivo de prisão, tortura ou mesmo morte. Mas para os profissionais envolvidos, esse era o motivo do jornalismo existir. Se não fosse, não existiriam jornalistas, e sim, fabricantes de embalagem para peixe.

Durante a ditadura, as pessoas imaginavam que somente os jornalistas de revistas ou de jornais impressos eram as principais vítimas de torturas, assassinatos e afins. Entretanto, quando se é cometido um crime como o caso do jornalista Mário Eugênio, a história fica diferente. Ele era um profissional do rádio, e mesmo assim não foi poupado por transmitir a verdade. Acredito que ele mesmo tenha puxado o gatilho da arma que o matou. Mesmo não fazendo "conjecturas à parte", era dele o slogan: "Aqui só se fala a verdade, somente a verdade, doa a quem doer."

É possível imaginar que um jornalista sedento pela verdade faria de tudo pela sua matéria. Quem sabe, pudesse custar a própria vida, isto é, quando feito com alguns descuidos. Esse foi o final da história de Mário Eugênio. Mas que, na verdade, era só o começo. Porque muita coisa aconteceu depois de sua morte, desde publicações nacionais em vários veículos e até o Prêmio Esso de 1985 pelas matérias dele e sobre ele no Correio Braziliense.

Mário Eugênio Rafael de Oliveira, 31 anos, tinha um programa na Rádio Planalto, o Gogó das Sete, e era repórter policial do jornal Correio. Ele foi encontrado morto no estacionamento da rádio, em seu carro, em 11 de novembro de 1984. Motivo: denunciou em seu programa de rádio policiais corruptos que faziam parte de um grupo criminoso, o "esquadrão da morte", que atuava em Brasília e Goiás.

Alguns amigos de Mário Eugênio diziam que ele era um pouco sensacionalista. Talvez, essa ânsia de mostrar a verdade com alguns "floreios" - como definem seus amigos - pode ter sido determinante para seu fim trágico. Será que este é o melhor caminho para se denunciar falcatruas e roubos? Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, pelo menos 53 jornalistas foram mortos no exercício profissional ou por expressar suas opiniões em 2004.

Não descarto a possibilidade de que a maioria destes estivesse levantando informações relevantes, ou que foram meras vítimas da circunstância como o jornalista Tim Lopes e o fotógrafo La Costa. Contudo, muitas mortes poderiam ser evitadas se houvesse um maior cuidado com a segurança, por parte dos próprios jornalistas. 

Verdade perigosa

Ser jornalista é uma profissão perigosa. E parecia que Mário Eugênio gostava de dar margem a esse precedente. O jornalismo do governo militar era assim. Enquanto alguns artistas cantavam por meio de códigos o desmazelo da ditadura, os jornalistas tinham que dar o tipo de informação "doa a quem doer". Mesmo se essa dor fosse a sua própria, a dor que levasse a sua vida.

Em 11 de novembro de 1984, por volta de meia-noite, Mário Eugênio saía do prédio da Rádio Planalto, em Brasília, quando foi morto com sete tiros na cabeça. 

O assassinato do jornalista abalou toda a sociedade. O inquérito policial apontou como suspeitos de serem os mandantes do assassinato o secretário de Segurança do Distrito Federal, coronel Lauro Melchíades Rieth, e o delegado, coordenador da Polícia Especializada, Ary Sardella.

De acordo com a polícia, baseada em depoimentos, Rieth teria pedido a Sardella para escolher os executores. O sargento Nazareno foi encarregado de definir quem participaria da emboscada contra o jornalista. 

Conseqüências 

Anos depois, ainda nem todos os responsáveis pelo assassinato do jornalista foram punidos. Para piorar, ninguém provou realmente a existência de um "esquadrão da morte", e nem se comprovou os crimes aos qual Mário Eugênio os acusava. Por sua vez, a reportagens sobre a morte de Mário Eugênio, intitulada "O esquadrão da morte em Brasília e o assassinato do jornalista Mário Eugênio", feita pela equipe do Correio, recebeu o Prêmio Esso em 1985.

Os processos contra o coronel Rieth e o delegado Sardella foram arquivados meses mais tarde por falta de provas. Foram indiciados também três militares do Exército: o sargento Antônio Nazareno Mortari Vieira e os cabos David Antônio do Couto e Aurelino Silvino de Oliveira, do Pelotão de Investigações Criminais. 

Mário Eugênio era um radiojornalista e fez de tudo para denunciar a corrupção policial em Brasília. Às vezes o preço de uma vitória é a "própria derrota". Mas essa só é interpretada pelos céticos porque não conseguem perceber os pequenos passos para a transformação do mundo. Alguns sofreram derrotas em busca do fim da ditadura. O final é sempre a busca pela verdade e justiça.