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Na gaiola do poder

Tiago Cabreira

Um fraco raio de luz entra entre as sólidas barras de ferro daquela gaiola de dimensões imensas e inabaláveis. Nela, insistem em permanecer um poleiro e um sonho, nada mais. A penumbra do lugar traz o reflexo de sua hostilidade, nele não existem portas ou janelas. Quem está fora não quer entrar, e quem está dentro não consegue sair.

Bem ao fundo da gaiola se vê uma andorinha de asas quebradas, cega e faminta. Faminta pelo desejo de voar e de ser livre. Tocar as nuvens. Ver o sol e sentir o vento. Simplesmente lembranças. Seu cantar é distante, praticamente inexistente, involuntário e irreconhecível.

Presa por todos os lados, e impossibilitada de fugir das garras do poder que a conserva presa, a andorinha cai no profundo silêncio da frustração. No seu âmago imagina nunca mais voa, pois devido a gaiola perdeu seus direitos de escolha e liberdade. Então, eis que surgem raios de liberdade. O silêncio é quebrado. Sem medir esforços, várias marteladas são dadas contra as grades da prisão que permitem a visão de um novo mundo. 

A liberdade e o repressor entram em conflito. A imprensa e o poder não se cansam. Uma guerra contínua para lutar contra o perigo que ameaça a liberdade de imprensa, ou seja, o falso caráter ideológico das empresas de comunicação pública.

O jornalista Perseu Abramo em Padrões de manipulação na grande imprensa (2003) já dizia que os órgãos de imprensa, embora não fossem partidos políticos, agiam como tais. "Deixam de ser instituições da sociedade civil para se tornar instituições da sociedade política. Procuram representar - mesmo sem mandato real ou delegação explícita e consciente - valores e interesses de segmentos da sociedade. E tentam fazer a intermediação entre a sociedade civil e o Estado, o poder", escreveu Abramo.

Um exemplo disso é a empresa pública de comunicação Radiobras, que é vinculada a Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica. A Radiobras transmite informações jornalísticas sobre o Estado, o governo. Para isso, opera cinco estações de rádio, dois canais de televisão, uma agência de notícias, uma radioagência e um serviço radiofônico via satélite. A empresa possui o maior complexo de transmissores da América Latina. É o quinto do mundo, com capacidade de transmissão para quase todo o planeta.

Infelizmente seu potencial não corresponde a sua credibilidade. Em algumas matérias produzidas pela grande imprensa, a Radiobras chegou a ser comparada com o antigo DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão criado durante a ditadura Vargas para difundir a ideologia do governo. "O governo deve ter direito de comunicar sua versão dos fatos? Meia hora de noticiário na nova TV pública estaria bom. O que não dá é o governo do PT, que um dia se disse 'democrático e popular', se assanhar tanto com a propaganda e não extinguir esse entulho das ditaduras que é a Radiobras" desabafou Vinicius Torres Freire, jornalista da Folha de S. Paulo.

Patriarca radiofônico

A Radiobras é a responsável, junto aos órgãos de Comunicação do Legislativo e Judiciário, pela produção de A Voz do Brasil, um radiojornal cuja transmissão as 19 horas é obrigatória em todas as emissoras, e que não passa de uma propaganda do governo, em que a interpretação dos fatos e da realidade é transmitida tendenciosamente pelo veículo. 

Praticamente os avós do rádio no País, Voz do Brasil surgiu no período ditatorial do governo de Getúlio Vargas como estratégia de marketing para propagar a respeito da sua administração política. Esta estratégia se tornou tradição passando de um governo para o outro - e perdura até os dias do governo petista. Todos os dias, em cadeia nacional, durante uma hora, o programa traz informações sobre os três poderes, as suas realizações governamentais e a agenda política do presidente da República. É bem clara a postura do programa: proteção e divulgação da cúpula do País. 

Como porta-voz do governo, a Radiobras e sua companhia de emissoras, rádios, agências e a histórica A Voz do Brasil, modernizou-se com a internet. No próprio site da Radiobras, um artigo de Aldo Batista dos Santos Júnior critica os abusos publicitários pela internet e incentiva a necessidade de repressão de certas propagandas: "Sem dúvida, o veículo de comunicação que mais contribuiu para esta evolução tecnológica e social foi a internet. A "rede", como também é conhecida, foi o veículo que mais contribuiu para a propagação de ideologias, informações e expressões." Uma crítica que se contradiz, pois a própria Radiobrás faz publicidade do governo.

Para o presidente da Associação Mineira de Rádio e Televisão (AMIRT), Milton Lucca de Paula, A Voz do Brasil é antidemocrática devido a obrigatoriedade de transmissão do programa - todos os dias no mesmo horário. Lucca critica o problema essencial do programa: ausência de ouvintes. "Das 19 às 20 horas, as emissoras de rádio falam, literalmente, para o espaço, já que as pessoas costumam desligar seus aparelhos receptores neste horário. Além de pouco confiável, na medida em que suas informações são filtradas pelo próprio governo".

Milton Lucca busca de forma democrática encontrar uma solução para o problema em defesa da liberdade dos radiodifusores: "Mas já é tempo do Brasil ingressar na pós-modernidade, a começar por um diálogo mais franco e aberto com a população, cujo caminho, certamente, não passa por 'A Voz do Brasil', um modelo na contramão de todas as exigências dos novos tempos e, sobretudo, de relações políticas essencialmente democráticas como propõe o atual governo". Uma justificativa encontrada de combater a repressão e a censura dos meios de comunicação.

Como ser livre se estamos cegos pela cortina imposta pelo poder? Ainda continuam-se a ouvir as marteladas. O jornalismo e imprensa não cansaram de combater a repressão e a censura que o poder impõe, ainda continua a luta pela liberdade, pela escolha e pela verdade.

O direito de voar ainda nos pertence.