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A paixão de Rodrigues

Giancarlo Sorvillo

Um misto de terror e suspense toma conta dos moradores. Com respiração cortada comentam os fatos ocorridos naquela noite. Alguns se aventuram em dar sua opinião; outros se limitam a ouvir; alguns suspiram aliviados. Mãos perfuradas e amarradas por homens desconhecidos, mandados possivelmente por líderes que queriam fazê-lo calar de alguma forma, antes que sua influência aumentasse em proporções desastrosas. Acusação: denunciar a corrupção de importantes líderes da cidade.

"Coincidência bíblica" - ou não - foi o que aconteceu em 4 de outubro de 2002, quando o jornalista Antônio Felipe Santolia Rodrigues teve sua "paixão" em Esperantina, Piauí, quando foi crucificado por dois homens encapuzados, supostamente mandados pelo candidato da oposição à prefeitura da cidade, já que Felipe estaria denunciando esquemas de corrupção. 

No entanto, ao investigar o caso com mais cuidado, provou-se que tudo passava de uma farsa para chamar a atenção para o candidato que o repórter apoiava. Uma das coisas que contribuiu para que se chegasse a essa conclusão foi que Rodrigues estava distribuindo fotos de sua crucifixão aos moradores. Ele era conhecido por ser um tanto exibicionista, principalmente porque tinha uma rádio, Chibata da Esperantina - um nome sugestivo -, onde fazia as denúncias.

Campanha eleitoral

Três anos depois, Rodrigues foi eleito prefeito de Esperantina. Seu maior "cabo eleitoral" foi a suposta crucifixão. Após o acontecimento, ele adquiriu uma popularidade tão grande, que foi o candidato com o maior número de votos. Numa entrevista ao Jornal do Brasil, o jornalista "garantiu que fará uma administração diferente." Acho que ninguém duvida disso. 

O jornalismo já sofreu muito com a censura e a falta de liberdade de expressão, porém usar a mentira e a farsa para denunciar - ou a encenação - para induzir pessoas a tomarem um partido é realmente dar uma coroa de espinhos à liberdade e uma chibatada na consciência e no compromisso com a verdade. Além de ferir a ética profissional, essa atitude deixa algumas dúvidas no ar, principalmente, por causa da "ressurreição" de Rodrigues em 1.º de janeiro deste ano quando tomou posse da Prefeitura de Esperantina, onde o "calvário" aconteceu.

Ele usou a farsa teatral como trampolim para obter o cargo de prefeito? "Talvez". A verdade é que a luta pela liberdade de expressão foi grande. A conquista não deve ser crucificada desse jeito. Ser livre é transmitir à sociedade verdades que ela precisa e deve saber sem encenar peças de caricaturas jornalísticas motivadas por supostos interesses pessoais. 

Isso deve mudar. Caso contrário, as marcas dos pregos no Jornalismo serão cada vez mais profundas.